União Espírita Brasileira https://uniaoespiritabrasileira.com.br/ União dos espíritas brasileiros contra as distorções Sat, 15 Aug 2026 17:55:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/wp-content/uploads/2026/05/cropped-UEB-removebg-32x32.png União Espírita Brasileira https://uniaoespiritabrasileira.com.br/ 32 32 Guia para a Formação de Grupos de Estudos de Espiritismo https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/guia-para-a-formacao-de-grupos-de-estudos-de-espiritismo/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/guia-para-a-formacao-de-grupos-de-estudos-de-espiritismo/#respond Sat, 15 Aug 2026 17:55:35 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=332 Introdução Um grupo de estudos de Espiritismo não precisa ser uma instituição formal. Não é necessário possuir sede física, diretoria constituída, patrimônio, conta bancária, estatuto registrado ou CNPJ. Um grupo pode nascer simplesmente da reunião regular de algumas pessoas interessadas em estudar seriamente o Espiritismo, inclusive de maneira inteiramente virtual. Essa simplicidade não significa ausência […]

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Introdução

Um grupo de estudos de Espiritismo não precisa ser uma instituição formal.

Não é necessário possuir sede física, diretoria constituída, patrimônio, conta bancária, estatuto registrado ou CNPJ. Um grupo pode nascer simplesmente da reunião regular de algumas pessoas interessadas em estudar seriamente o Espiritismo, inclusive de maneira inteiramente virtual.

Essa simplicidade não significa ausência de organização.

Allan Kardec observava que, quando se tratasse não de uma sociedade regularmente constituída, mas de simples reuniões particulares, a estrutura administrativa poderia ser muito simplificada, permanecendo necessárias sobretudo medidas de ordem, precaução e regularidade nos trabalhos.

O objetivo deste guia é justamente apresentar um modelo adaptado à realidade atual: pequenos grupos independentes, organizados pela internet, reunidos por videoconferência e apoiados por ferramentas como WhatsApp, Telegram, Google Drive ou equivalentes.

O elemento fundamental não é a existência jurídica do grupo.

É a seriedade do estudo.


1. O que é um Grupo de Estudos de Espiritismo?

Um Grupo de Estudos de Espiritismo é uma reunião regular de pessoas que se propõem a estudar a Doutrina Espírita de maneira metódica, crítica, racional e fraterna.

Seu objetivo principal deve ser:

conhecer o Espiritismo, compreender seu método, examinar seus princípios e procurar aplicar suas consequências morais à própria vida.

O grupo não deve ser organizado em torno da autoridade intelectual ou espiritual de uma pessoa.

Também não deve funcionar como curso ministrado por um professor.

Todos são estudantes.

Pode haver participantes mais experientes, capazes de indicar referências, contextualizar determinados assuntos ou auxiliar os iniciantes, mas isso não lhes confere autoridade para determinar o que os demais devem pensar.

O conhecimento deve resultar do estudo, da comparação das fontes, do exame racional e da discussão respeitosa.


2. Um grupo não precisa de CNPJ

Para a finalidade proposta neste guia, o grupo pode existir simplesmente como uma reunião privada de pessoas.

Pode ter:

  • um nome;
  • uma página na internet;
  • um grupo de WhatsApp ou Telegram;
  • uma sala no Google Meet, Zoom, Teams ou plataforma semelhante;
  • uma pasta compartilhada de documentos;
  • reuniões semanais ou quinzenais;
  • responsáveis pela organização dos encontros.

Nada disso exige, por si só, que o grupo se transforme numa associação formal.

A preocupação inicial deve estar no estudo, não na burocracia.

Estruturas jurídicas somente fazem sentido quando surgem atividades que efetivamente as exijam.

Para um pequeno grupo independente que se reúne para estudar Espiritismo, a simplicidade administrativa constitui uma vantagem.


3. Prefiram pequenos grupos

Kardec defendia expressamente a multiplicação de pequenos grupos em vez da concentração dos espíritas em grandes organizações.

Chegou a observar que vinte grupos de quinze ou vinte pessoas poderiam produzir resultados superiores aos de uma única sociedade com centenas de participantes.

A razão não era apenas administrativa.

Pequenos grupos favorecem:

  • maior participação;
  • conhecimento mútuo;
  • responsabilidade individual;
  • liberdade de estudo;
  • afinidade intelectual e moral;
  • facilidade para manter a ordem;
  • menor personalismo;
  • menor disputa por cargos;
  • maior possibilidade de diálogo.

Por isso, não deve existir preocupação em transformar cada grupo numa grande organização.

Não procurem números. Procurem qualidade.

Quando um grupo crescer demais, uma solução saudável pode ser a formação de novos grupos.

Um grupo que produz outros grupos cumpre melhor sua finalidade do que um grupo que procura concentrar indefinidamente todos ao seu redor.


4. O grupo deve possuir uma base doutrinária clara

Nenhum grupo de estudos consegue funcionar adequadamente se seus participantes não souberem exatamente o que se propõem a estudar.

Se a proposta é estudar o Espiritismo, as obras de Allan Kardec devem constituir sua referência fundamental.

Outros autores podem ser estudados.

Outras hipóteses podem ser examinadas.

Livros posteriores podem ser analisados.

Conhecimentos históricos, filosóficos e científicos podem e devem ser utilizados quando forem úteis à compreensão dos assuntos.

Mas deve permanecer clara a diferença entre:

o que pertence à Doutrina Espírita;

o que é hipótese apresentada por Kardec durante suas pesquisas;

o que corresponde a conhecimentos posteriormente desenvolvidos;

o que constitui opinião de determinado autor;

e o que é apenas tradição incorporada posteriormente pelo movimento espírita.

Essa distinção é indispensável.

O simples fato de uma ideia ser popular entre espíritas não a transforma em princípio do Espiritismo.


5. Material base de leitura recomendado

Para que o grupo possua uma compreensão sólida do contexto histórico, filosófico e metodológico em que o Espiritismo se desenvolveu, recomenda-se começar por um conjunto básico de leituras.

A proposta não é transformar essa lista em um currículo rígido, mas oferecer uma base comum que reduza interpretações fragmentadas e permita compreender melhor o desenvolvimento da Doutrina.

5.1. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo

A primeira indicação é:

FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo.

Esta obra é especialmente recomendada no início dos estudos porque auxilia na reconstrução do contexto intelectual em que Allan Kardec trabalhou.

Seu estudo permite compreender com maior clareza temas como:

  • a formação filosófica do século XIX;
  • o Espiritualismo Racional;
  • a ideia de autonomia moral;
  • a educação moral;
  • o contexto científico e filosófico da época de Kardec;
  • conceitos que aparecem nas obras espíritas e que hoje muitas vezes são interpretados fora de seu contexto original.

O objetivo dessa leitura introdutória não é substituir Kardec por um intérprete contemporâneo.

É exatamente o contrário: fornecer elementos históricos que ajudem o estudante a ler Kardec com maior precisão, evitando projetar sobre seus textos conceitos posteriores que não pertenciam ao vocabulário intelectual de sua época.

Por isso, recomenda-se que o grupo estude essa obra logo no início de sua formação, antes ou paralelamente aos primeiros estudos sistemáticos da obra de Kardec.

5.2. As 23 obras de Allan Kardec

A base principal de estudo deve ser constituída pelo conjunto das 23 obras de Allan Kardec.

Essas obras devem ser compreendidas como um conjunto, e não apenas pelas cinco obras que posteriormente passaram a ser conhecidas popularmente como “obras básicas”.

O estudo amplo da produção de Kardec permite acompanhar:

  • a formação da Doutrina;
  • seu desenvolvimento progressivo;
  • as investigações realizadas;
  • as respostas às críticas;
  • os debates científicos e filosóficos;
  • as instruções sobre organização dos grupos;
  • os estudos sobre mediunidade;
  • as consequências morais do Espiritismo;
  • o próprio método empregado na investigação espírita.

As 23 obras estão disponíveis para consulta e estudo no seguinte endereço:

https://bit.ly/4cMeJHF

Recomenda-se que os integrantes mantenham esse acervo acessível durante os encontros, permitindo a consulta imediata sempre que surgirem dúvidas ou referências cruzadas.

5.3. A Revista Espírita

Entre as obras de Kardec, a Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, publicada mensalmente de 1858 a 1869, merece atenção especial.

Ela não deve ser tratada apenas como uma coleção de curiosidades históricas.

A Revista permite acompanhar o Espiritismo enquanto estava sendo investigado e desenvolvido.

Nela encontramos Kardec:

  • observando fatos;
  • propondo hipóteses;
  • comparando comunicações;
  • examinando contradições;
  • correspondendo-se com grupos de diferentes localidades;
  • modificando interpretações;
  • distinguindo princípios estabelecidos de questões ainda em estudo;
  • respondendo às críticas;
  • aplicando seu método de análise.

Por isso, é especialmente recomendável que um grupo novo estabeleça um estudo contínuo e cronológico da Revista Espírita, começando pelo ano de 1858.

Esse estudo pode prosseguir durante vários anos sem impedir que outras obras sejam examinadas paralelamente.

5.4. Não confundir leitura com estudo

Ter lido uma obra não significa necessariamente tê-la estudado.

O estudo pressupõe:

  • leitura atenta;
  • contextualização;
  • comparação de passagens;
  • consulta a outros textos;
  • identificação de conceitos;
  • distinção entre hipótese e conclusão;
  • registro de dúvidas;
  • retorno posterior aos assuntos ainda não compreendidos.

Um grupo pode passar várias reuniões sobre um único texto quando o assunto exigir.

A finalidade não é “terminar livros”.

É compreender o que está sendo estudado.


6. Comecem pelas fontes

É recomendável que o grupo estabeleça um programa de estudos baseado diretamente nas obras de Kardec.

A Revista Espírita possui particular importância porque permite acompanhar o Espiritismo não apenas como um conjunto de conclusões, mas como uma ciência em desenvolvimento.

Nela encontramos Kardec:

  • observando fatos;
  • apresentando hipóteses;
  • comparando comunicações;
  • formulando perguntas;
  • abandonando explicações insuficientes;
  • desenvolvendo conceitos;
  • corrigindo conclusões;
  • respondendo a objeções;
  • construindo progressivamente a Doutrina.

Por isso, o estudo da Revista Espírita oferece algo que a simples leitura fragmentada das obras fundamentais não proporciona facilmente: o contato com o método de investigação de Kardec.

O grupo pode também estudar paralelamente as demais obras da Codificação, conforme sua maturidade e seus interesses.

O importante é que exista sequência e método.

Ler ocasionalmente algumas páginas de O Livro dos Espíritos ou de O Evangelho segundo o Espiritismo não equivale a realizar um estudo sistemático.


7. Não transformem opiniões em doutrina

Esta é uma das regras mais importantes de qualquer grupo sério.

Uma opinião deve continuar sendo apresentada como opinião.

Uma hipótese deve continuar sendo apresentada como hipótese.

Um assunto não resolvido deve permanecer não resolvido.

Ninguém deve receber o direito de pronunciar a “palavra final” sobre aquilo que não estiver suficientemente estabelecido.

Isso vale tanto para autores encarnados quanto para comunicações atribuídas a Espíritos.

O método espírita não autoriza raciocinar assim:

“Um Espírito disse, portanto é verdade.”

Nem assim:

“Um médium famoso escreveu, portanto pertence ao Espiritismo.”

Nem:

“Sempre aprendemos assim no movimento espírita, portanto Kardec ensinava isso.”

A pergunta correta é:

Qual é a base dessa afirmação?

Em seguida:

Como essa conclusão foi estabelecida?

E finalmente:

As evidências disponíveis são suficientes para sustentá-la?

O grupo deve aprender a conviver tranquilamente com a resposta:

Ainda não sabemos.


8. Não confundam discordância com desunião

Um bom grupo não é aquele em que todos concordam o tempo inteiro.

É aquele em que todos conseguem investigar uma questão sem transformar divergências intelectuais em conflitos pessoais.

Kardec defendia o exame escrupuloso dos assuntos e a liberdade de opinião, mas alertava contra outro comportamento: a pessoa que não discute para esclarecer, e sim para impor sua posição.

Esse comportamento destrói grupos.

Portanto:

discordar é permitido;

questionar é permitido;

pedir provas é permitido;

questionar interpretações é permitido;

revisar conclusões é permitido.

O que não deve ser permitido é:

  • transformar toda reunião em debate;
  • monopolizar a palavra;
  • hostilizar quem discorda;
  • insistir indefinidamente no mesmo assunto;
  • introduzir permanentemente temas paralelos;
  • utilizar sarcasmo ou humilhação;
  • tentar vencer discussões em vez de estudar.

Homogeneidade de propósito não significa uniformidade absoluta de pensamento.


9. O objetivo é estudar, não vencer discussões

Quando surgir uma divergência que não possa ser resolvida naquele momento, o procedimento adequado é simples:

  1. registrar a questão;
  2. identificar exatamente o ponto de divergência;
  3. pesquisar as fontes;
  4. localizar o tratamento dado ao assunto por Kardec;
  5. reunir eventualmente outras informações relevantes;
  6. retornar ao assunto em outro encontro.

Isso transforma conflitos em pesquisa.

Uma discussão de quinze minutos pode gerar um excelente estudo para a reunião seguinte.

Uma discussão de duas horas, na qual duas pessoas repetem os mesmos argumentos, geralmente não produz conhecimento algum.


10. Estabeleçam regras antes que os problemas apareçam

Todo grupo deve possuir algumas regras mínimas por escrito.

Não é necessário elaborar um estatuto jurídico.

Uma página pode ser suficiente.

Os participantes devem conhecê-la antes de ingressar no grupo.

As regras devem deixar claro:

  • qual é o objetivo do grupo;
  • quais são suas referências doutrinárias;
  • como funcionam as reuniões;
  • como novos participantes são admitidos;
  • quais comportamentos não serão aceitos;
  • como serão conduzidas divergências;
  • quem pode moderar a reunião;
  • em quais situações um participante poderá ser advertido ou afastado.

Regras estabelecidas antecipadamente evitam que medidas necessárias pareçam perseguições pessoais posteriormente.


11. Nomeiem coordenadores, não autoridades doutrinárias

Todo grupo precisa de organização.

Alguém deverá:

  • abrir a sala virtual;
  • organizar o calendário;
  • distribuir estudos;
  • manter documentos;
  • moderar as falas;
  • interromper discussões improdutivas;
  • receber novos participantes;
  • aplicar as regras estabelecidas pelo próprio grupo.

Essas pessoas podem ser chamadas de coordenadores ou organizadores.

A função é administrativa.

O coordenador não se transforma em autoridade doutrinária.

Sua responsabilidade é preservar o método e a ordem dos trabalhos.

Quando alguém monopolizar a reunião, o coordenador deve interromper.

Quando uma discussão sair completamente do tema, deve reconduzi-la.

Quando houver hostilidade, deve intervir.

Quando um participante continuar sistematicamente perturbando o grupo depois de advertido, poderá ser necessário afastá-lo.

Caridade não significa permitir que uma única pessoa destrua o trabalho de vinte.


12. Não deve haver professores

Uma das melhores maneiras de reduzir personalismos é evitar a criação da figura do “professor do grupo”.

Todos estudam.

Uma dinâmica eficiente consiste em distribuir os assuntos entre os participantes.

Por exemplo, se serão estudados quatro artigos da Revista Espírita em determinado mês, quatro participantes podem ficar responsáveis por apresentar inicialmente cada um deles.

O responsável não dará uma aula.

Sua tarefa será:

  • apresentar o contexto;
  • destacar os principais pontos;
  • explicar o que compreendeu;
  • indicar dúvidas;
  • localizar referências relacionadas;
  • propor questões ao grupo.

Os demais participantes também devem realizar a leitura.

Assim, a reunião deixa de ser uma palestra e passa a ser verdadeiramente um estudo coletivo.


13. Façam estudo prévio

O encontro funciona muito melhor quando os participantes recebem antecipadamente o material.

Pode-se manter uma pasta compartilhada no Google Drive, OneDrive ou serviço semelhante contendo:

  • texto que será estudado;
  • referências;
  • perguntas;
  • observações;
  • comentários prévios;
  • documentos produzidos pelo grupo.

Isso cria continuidade entre as reuniões.

Também evita que todo encontro precise começar do zero.

Não é necessário exigir que todos produzam longas pesquisas.

Mas é desejável que cada participante chegue sabendo minimamente qual assunto será tratado.


14. Um formato simples de reunião

Uma reunião semanal de aproximadamente 60 a 90 minutos pode funcionar desta maneira:

1. Abertura

Breve saudação e, conforme o costume do grupo, uma prece simples.

2. Apresentação do tema

O participante responsável apresenta resumidamente o material estudado.

3. Exame do texto

O grupo analisa:

  • contexto;
  • argumentos;
  • conceitos;
  • conclusões;
  • dúvidas;
  • relação com outros textos de Kardec.

4. Discussão

Os participantes apresentam suas interpretações e questionamentos.

5. Questões pendentes

Assuntos que exigirem pesquisa adicional são anotados.

6. Conclusões

Distingue-se claramente:

  • aquilo que o texto efetivamente demonstra;
  • aquilo que permanece hipotético;
  • aquilo que exige estudos posteriores.

7. Próximo estudo

Define-se o responsável e o material da reunião seguinte.

8. Encerramento

Breve prece, caso seja prática adotada pelo grupo.

A estrutura pode ser modificada livremente.

O importante é evitar que a reunião se transforme numa conversa sem direção.


15. Ferramentas digitais

Um grupo moderno pode funcionar integralmente pela internet.

Uma estrutura bastante simples é suficiente:

Videoconferência:
Google Meet, Zoom, Microsoft Teams ou equivalente.

Comunicação:
WhatsApp, Telegram ou equivalente.

Documentos:
Google Drive, OneDrive, Dropbox ou equivalente.

Agenda:
Google Calendar ou agenda compartilhada.

Biblioteca:
pasta compartilhada contendo obras, referências e documentos de estudo, respeitando os direitos autorais aplicáveis.

O WhatsApp ou Telegram deve funcionar como ferramenta de apoio, e não substituir a reunião de estudos.

Discussões doutrinárias complexas em grupos de mensagens tendem facilmente à fragmentação, ao mal-entendido e à interminável sucessão de respostas.

O estudo principal deve ocorrer em reunião organizada, preferencialmente ao vivo.


16. Participação em reuniões virtuais

Algumas regras adicionais são úteis em ambientes digitais:

  • mantenha o microfone fechado enquanto outra pessoa fala;
  • evite interrupções;
  • utilize o recurso de levantar a mão quando necessário;
  • não monopolize o encontro;
  • mantenha as discussões paralelas fora da reunião principal;
  • não divulgue mensagens privadas de participantes;
  • informe previamente quando a reunião for gravada;
  • somente publique áudio, vídeo ou imagem de participantes quando eles estiverem cientes dessa condição;
  • o moderador poderá silenciar um microfone quando ruídos prejudicarem o encontro.

Tecnologia muda.

Princípios de boa convivência não.


17. Entrada de novos participantes

O grupo não precisa transformar a entrada de novos membros em um processo burocrático.

Também não é necessário exigir que a pessoa já conheça profundamente o Espiritismo.

Entretanto, duas condições são fundamentais:

  1. interesse sincero em estudar;
  2. disposição para respeitar a finalidade e as regras do grupo.

Um iniciante interessado em aprender pode contribuir muito mais para o grupo do que alguém que leu dezenas de livros, mas ingressa apenas para ensinar aos demais aquilo que já decidiu ser verdade.

Antes de participar regularmente, o novo integrante deve receber:

  • apresentação do objetivo do grupo;
  • regras;
  • programa de estudos;
  • indicação de material introdutório.

Também pode assistir inicialmente a algumas reuniões para compreender sua dinâmica.


18. Oposição sistemática não é estudo

Um grupo de estudos não precisa admitir indefinidamente alguém que ingressa com o objetivo de combater sua própria base de trabalho.

Isso não significa proibir questionamentos.

Questionamentos são essenciais.

Há, porém, diferença entre:

“Não compreendi este princípio; gostaria de examiná-lo.”

e:

“Discordo da própria base desse grupo e pretendo utilizar todas as reuniões para combatê-la.”

No primeiro caso existe investigação.

No segundo existe incompatibilidade de propósito.

Kardec considerava necessária certa homogeneidade para a estabilidade dos grupos e distinguia claramente a liberdade de discussão do espírito permanente de oposição.

Nenhuma reunião consegue estudar se precisa rediscutir seus próprios fundamentos todas as semanas.


19. Benevolência não elimina firmeza

Os integrantes devem cultivar reciprocamente:

  • respeito;
  • benevolência;
  • paciência;
  • liberdade de consciência;
  • disposição para ouvir;
  • reconhecimento das próprias limitações.

Mas essas virtudes não devem ser confundidas com permissividade.

Participantes que reiteradamente:

  • insultem;
  • provoquem;
  • desorganizem reuniões;
  • monopolizem discussões;
  • promovam conflitos pessoais;
  • desrespeitem participantes;
  • ignorem deliberadamente as regras;

devem ser advertidos.

Persistindo o comportamento, podem ser afastados.

A preservação do grupo também constitui responsabilidade moral.


20. Evitem política partidária e controvérsia religiosa

Um Grupo de Estudos de Espiritismo não deve transformar suas reuniões em espaço de disputa político-partidária.

Participantes possuem naturalmente posições políticas diferentes.

Isso deve ser respeitado.

Questões sociais, morais, filosóficas ou históricas podem aparecer quando forem pertinentes ao assunto estudado, mas o grupo não deve transformar-se em instrumento eleitoral, partidário ou ideológico.

Da mesma maneira, deve-se evitar controvérsia contra outras religiões.

É perfeitamente possível comparar ideias filosóficas ou estudar historicamente doutrinas religiosas.

Outra coisa é transformar o encontro em espaço de ataque às crenças dos participantes ou de terceiros.

O foco deve permanecer no Espiritismo.


21. Não façam proselitismo

O objetivo do grupo não deve ser converter pessoas.

O Espiritismo deve ser apresentado.

Estudado.

Explicado.

Submetido à razão.

Cada pessoa permanece livre para aceitar ou rejeitar aquilo que lhe pareça verdadeiro.

A preocupação com crescimento numérico frequentemente produz exatamente aquilo que um bom grupo deveria evitar: superficialidade, concessões e transformação do estudo em espetáculo.


22. Não confundam grupo de estudos com grupo mediúnico

Este guia trata especificamente de grupos de estudos.

O grupo não deve começar realizando sessões de evocação, desenvolvimento mediúnico, psicografia, atendimento espiritual ou atividades semelhantes simplesmente porque algum participante apresenta mediunidade.

O estudo da mediunidade é perfeitamente cabível.

A prática mediúnica é outra atividade.

Ela exige preparação, conhecimento específico, condições próprias de organização e cuidados que ultrapassam o propósito deste guia.

Portanto:

a existência de médiuns no grupo não transforma um grupo de estudos em reunião mediúnica.

Caso futuramente alguns integrantes decidam realizar atividades experimentais ou mediúnicas, devem organizá-las separadamente e somente depois de adquirirem conhecimento suficiente sobre o assunto.


23. Obras mediúnicas posteriores podem ser objeto de análise, não fundamento automático

O grupo não precisa proibir o estudo de autores posteriores a Kardec.

Pode ser extremamente útil examinar determinadas obras justamente à luz do método espírita.

Mas existe diferença entre estudar uma obra e adotá-la como fonte doutrinária.

Uma narrativa mediúnica não ganha autoridade científica simplesmente por ser atribuída a um Espírito.

Afirmações sobre:

  • organização do mundo espiritual;
  • condições após a morte;
  • mecanismos da reencarnação;
  • consequências de determinadas ações;
  • fisiologia espiritual;
  • cidades ou instituições espirituais;

devem ser submetidas ao mesmo critério aplicado a qualquer outra afirmação.

Autoridade pessoal, fama do médium, beleza literária ou popularidade não substituem demonstração.


24. Apliquem o método de Kardec

O estudo espírita deve ensinar também como pensar.

Diante de uma afirmação, habituem-se a perguntar:

  • Qual é a fonte?
  • Qual é o contexto?
  • Trata-se de observação ou interpretação?
  • Kardec apresenta isso como fato, hipótese ou conclusão?
  • Existem outras observações independentes?
  • Houve desenvolvimento posterior do assunto?
  • A conclusão é coerente com os demais princípios estabelecidos?
  • Há fatos que a contradigam?
  • Estamos repetindo uma tradição ou examinando uma evidência?

Essas perguntas protegem o grupo contra dois extremos:

a credulidade, que aceita tudo;

e

o dogmatismo, que deixa de investigar.


25. Não tenham medo de dizer “não sabemos”

Há enorme diferença entre conhecimento e segurança aparente.

Grupos pouco cuidadosos frequentemente produzem respostas definitivas para assuntos sobre os quais as próprias fontes são cautelosas.

Um grupo sério precisa aprender três respostas:

Sabemos.

Há indícios, mas ainda não podemos concluir.

Não sabemos.

A terceira resposta muitas vezes demonstra mais rigor do que longas explicações.


26. Registrem o conhecimento produzido

Cada grupo deve procurar conservar seus estudos.

Podem ser produzidos:

  • atas simples;
  • resumos;
  • artigos;
  • fichamentos;
  • índices temáticos;
  • mapas de referências;
  • apresentações;
  • vídeos curtos;
  • gravações das reuniões, quando autorizadas;
  • bancos de perguntas e respostas.

O conhecimento acumulado não deve desaparecer porque determinado participante deixou o grupo.

Uma boa organização documental também permite que novos integrantes acompanhem o caminho já percorrido.


27. Não centralizem o grupo numa pessoa

Um dos maiores riscos de qualquer iniciativa é tornar-se dependente de seu fundador.

Evitem isso desde o início.

Mais de uma pessoa deve conhecer:

  • as ferramentas utilizadas;
  • as senhas institucionais, quando houver;
  • a organização dos documentos;
  • o calendário;
  • a forma de condução das reuniões.

Devem existir outros integrantes capazes de organizar o encontro quando o coordenador habitual estiver ausente.

O grupo deve existir por causa de seu propósito, e não por causa de uma personalidade.


28. O grupo pertence aos seus participantes

Nenhum grupo deve apresentar-se como subordinado doutrinária ou administrativamente a outro grupo.

Pode haver cooperação.

Pode haver troca de pesquisas.

Pode haver orientação.

Pode haver atividades conjuntas.

Pode haver identidade de princípios.

Mas cada grupo deve conservar sua autonomia.

Essa concepção encontra precedente direto em Kardec, que rejeitava a ideia de uma submissão material dos grupos a uma sociedade central e defendia relações de natureza moral, científica e fraterna.

A unidade deve resultar da base doutrinária comum, e não de uma estrutura de comando.


29. Formação de novos grupos

Quando determinado grupo estiver funcionando bem, incentive outros participantes a iniciarem novos núcleos.

Não é necessário esperar possuir dezenas de pessoas.

Três, quatro ou cinco interessados já podem iniciar um excelente trabalho.

O modelo pode ser simples:

  1. reunir algumas pessoas interessadas;
  2. definir o objetivo;
  3. escolher dia e horário;
  4. criar uma sala de videoconferência;
  5. criar um grupo de comunicação;
  6. estabelecer regras mínimas;
  7. escolher uma obra;
  8. distribuir o primeiro estudo;
  9. marcar a primeira reunião;
  10. começar.

Não é necessário aguardar autorização de ninguém.


30. Quando o grupo crescer

Se o número de participantes começar a prejudicar a participação individual, considerem dividir o grupo.

Por exemplo:

um grupo com vinte participantes pode originar dois grupos com dez.

Os dois podem continuar mantendo contato entre si.

Podem realizar eventualmente estudos conjuntos.

Podem compartilhar documentos.

Podem organizar eventos em comum.

Mas cada um preservará uma dinâmica menor e mais participativa.

Em vez de construir uma estrutura cada vez maior e mais centralizada, multipliquem núcleos.


31. Regras mínimas sugeridas

Todo Grupo de Estudos de Espiritismo poderá adotar, ao menos, as seguintes regras:

Regra 1 — Finalidade

O grupo existe para estudar o Espiritismo de maneira séria, racional, fraterna e metódica.

Regra 2 — Base

As obras de Allan Kardec constituem a referência doutrinária fundamental do grupo.

Regra 3 — Liberdade de pensamento

Nenhum participante é obrigado a aceitar conclusões que não lhe convençam pela razão.

Regra 4 — Distinção entre doutrina e opinião

Opiniões pessoais, comunicações mediúnicas e obras posteriores não serão apresentadas automaticamente como princípios do Espiritismo.

Regra 5 — Ausência de autoridade doutrinária pessoal

Não existem professores, gurus ou pessoas autorizadas a dar a palavra final sobre questões não suficientemente estabelecidas.

Regra 6 — Respeito ao tema

Discussões paralelas que comprometam o estudo serão interrompidas e poderão ser transferidas para outro encontro.

Regra 7 — Direito de questionar

Nenhum argumento estará protegido contra questionamento racional.

Regra 8 — Respeito pessoal

Críticas devem ser dirigidas às ideias, nunca à dignidade das pessoas.

Regra 9 — Limitação do uso da palavra

Nenhum participante poderá monopolizar continuamente as reuniões.

Regra 10 — Política partidária

O grupo não será utilizado para propaganda político-partidária.

Regra 11 — Controvérsia religiosa

Não serão promovidos ataques, disputas confessionais ou tentativas de constranger participantes por suas crenças particulares.

Regra 12 — Proselitismo

O grupo não possui como finalidade converter pessoas ou disputar seguidores.

Regra 13 — Atividade mediúnica

As reuniões regulares do grupo são destinadas ao estudo e não constituem sessões mediúnicas.

Regra 14 — Organização

Os coordenadores possuem autoridade para manter a ordem das reuniões, sem que isso lhes conceda autoridade doutrinária.

Regra 15 — Advertências

Participantes que desrespeitarem as regras poderão ser advertidos pelos coordenadores.

Regra 16 — Afastamento

A repetição de comportamentos que prejudiquem o funcionamento do grupo poderá resultar no afastamento do participante.

Regra 17 — Gravações

Quando reuniões forem gravadas ou transmitidas, todos os participantes deverão ser previamente informados.

Regra 18 — Autonomia

O grupo é autônomo e responsável por sua própria organização.

Regra 19 — Cooperação

A autonomia não impede relações de estudo, amizade, pesquisa e colaboração com outros grupos.

Regra 20 — Revisão

As próprias regras poderão ser revistas quando a experiência demonstrar essa necessidade.


32. Um grupo simples pode realizar um grande trabalho

Não confundam relevância com tamanho.

Um grupo com seis pessoas que estuda seriamente durante cinco anos pode produzir mais conhecimento e transformação do que uma organização com centenas de frequentadores reunidos apenas para assistir exposições.

O valor está na constância.

Uma reunião por semana representa aproximadamente cinquenta encontros por ano.

Em cinco anos, são cerca de duzentos e cinquenta estudos.

Esse acúmulo transforma profundamente a compreensão dos participantes.

O trabalho sério começa pequeno.


33. Unidade sem centralização

Grupos diferentes podem estudar os mesmos princípios sem formar uma estrutura hierárquica.

Podem compartilhar:

  • pesquisas;
  • documentos;
  • traduções;
  • referências;
  • artigos;
  • experiências;
  • métodos de estudo;
  • materiais didáticos.

Assim se forma uma rede.

Não uma pirâmide.

A unidade decorre do propósito e dos princípios comuns.

Essa concepção acompanha uma ideia importante apresentada por Kardec: grupos que adotam a mesma base podem manter relações científicas, morais e de mútua benevolência sem subordinação administrativa entre si.


34. Formou um grupo? Registre sua iniciativa

Depois que o grupo estiver formado, seus responsáveis poderão cadastrá-lo junto à União Espírita Brasileira — UEB.

O objetivo do cadastro é permitir que outros interessados encontrem grupos de estudos, favorecer o contato entre iniciativas semelhantes e ampliar uma rede de grupos autônomos dedicados ao estudo do Espiritismo.

O cadastro não transforma o grupo em filial da UEB, não cria subordinação administrativa e não interfere em sua autonomia.

O grupo continua responsável pela própria organização e pelos próprios estudos.

Cadastro de Grupos de Estudos da União Espírita Brasileira:


Conclusão

Formar um Grupo de Estudos de Espiritismo é muito mais simples do que frequentemente se imagina.

Não é necessário prédio.

Não é necessário patrimônio.

Não é necessário CNPJ.

Não é necessária uma grande quantidade de participantes.

Não é necessário um professor.

São necessárias algumas pessoas dispostas a estudar com regularidade, método, liberdade de pensamento, disciplina e respeito mútuo.

A tecnologia tornou ainda mais fácil aquilo que Kardec já recomendava no século XIX: a multiplicação de pequenos grupos unidos pela afinidade de propósito e pela identidade de princípios.

Comecem pequenos.

Construam uma base histórica e conceitual.

Estudem as fontes.

Questionem.

Pesquisem.

Não transformem hipóteses em verdades.

Não transformem pessoas em autoridades.

Não transformem divergências em conflitos.

Mantenham registros.

Formem novos grupos.

E deixem que a unidade resulte do conhecimento e dos princípios, nunca da imposição.

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Kardec, Frenologia e Raça: uma análise histórica entre ciência, Espiritismo e contexto intelectual https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/kardec-frenologia-e-raca-uma-analise-historica-entre-ciencia-espiritismo-e-contexto-intelectual/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/kardec-frenologia-e-raca-uma-analise-historica-entre-ciencia-espiritismo-e-contexto-intelectual/#respond Sat, 08 Aug 2026 14:07:55 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=327 Introdução Alguns textos de Allan Kardec sobre as chamadas raças humanas produzem evidente desconforto ao leitor contemporâneo. Em determinadas passagens, Kardec utiliza expressões como “raças mais inteligentes”, “raça inferior” e chega a sustentar que diferentes organizações corporais ofereceriam diferentes possibilidades de manifestação intelectual. Lidas exclusivamente a partir das categorias científicas e morais atuais, essas formulações […]

O post Kardec, Frenologia e Raça: uma análise histórica entre ciência, Espiritismo e contexto intelectual apareceu primeiro em União Espírita Brasileira.

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Introdução

Alguns textos de Allan Kardec sobre as chamadas raças humanas produzem evidente desconforto ao leitor contemporâneo. Em determinadas passagens, Kardec utiliza expressões como “raças mais inteligentes”, “raça inferior” e chega a sustentar que diferentes organizações corporais ofereceriam diferentes possibilidades de manifestação intelectual.

Lidas exclusivamente a partir das categorias científicas e morais atuais, essas formulações podem conduzir rapidamente à conclusão de que Kardec teria elaborado uma doutrina racial destinada a estabelecer a inferioridade dos negros.

Essa leitura, entretanto, corre o risco de cometer um anacronismo.

Não porque as passagens devam ser ocultadas, relativizadas ou declaradas corretas. Elas precisam ser examinadas integralmente. O problema está em interpretar textos de meados do século XIX como se seus conceitos, classificações e pressupostos científicos possuíssem exatamente o mesmo significado que possuem no século XXI.

Uma análise histórica exige inicialmente reconstruir o horizonte intelectual dentro do qual Kardec formulava seus argumentos.

Na antropologia física de seu período, “raça” constituía uma categoria científica amplamente utilizada. Pesquisadores procuravam classificar populações humanas segundo características anatômicas e fisiológicas e discutiam questões hoje abandonadas ou profundamente reformuladas, como a existência de diferentes capacidades naturais de desenvolvimento entre as chamadas raças.

A própria expressão “perfectibilidade das raças”, empregada por Kardec, fazia parte desse debate.

Somente depois de compreendido esse ambiente é possível perguntar o que Kardec fez com essas concepções, quais aceitou, quais rejeitou e de que maneira procurou articulá-las com os princípios do Espiritismo.

E somente numa etapa posterior é legítimo confrontar essa construção com o desenvolvimento das ciências que ocorreu depois de sua morte.

Essa ordem é indispensável.

Compreender historicamente uma ideia não significa validá-la; avaliá-la retrospectivamente não autoriza reconstruir o passado a partir de conhecimentos que seus agentes não possuíam.


1. A posição de fundo: unidade da humanidade e fraternidade espiritual

Antes de abordar frenologia ou diferenças raciais, é necessário estabelecer qual era a concepção geral de Kardec sobre a humanidade.

Em O Livro dos Espíritos, quando pergunta se as diferenças entre as chamadas raças humanas constituiriam espécies distintas, a resposta é negativa:

“Certamente que não; todos são da mesma família.”

Na questão seguinte, pergunta-se se essas diferenças poderiam impedir que os homens se considerassem irmãos. A resposta afirma que todos são irmãos em Deus, porque são animados pelo Espírito e caminham para o mesmo fim.

Isso estabelece uma premissa importante do sistema.

As categorias raciais utilizadas naquele período não correspondiam, para Kardec, a diferentes espécies de humanidade.

Também não correspondiam a espécies diferentes de Espíritos.

Em sua concepção, todos pertenciam à mesma humanidade espiritual e encontravam-se submetidos às mesmas leis gerais de progresso.

A desigualdade de condição ou de desenvolvimento não significava, nesse sistema, diferença de natureza essencial.

Essa distinção entre natureza espiritual comum e diferenças de grau será decisiva para compreender os textos posteriores.


2. A condenação do preconceito de cor antecede o artigo de 1862

Outro documento precisa ser colocado no início da análise porque modifica substancialmente o enquadramento do problema.

Em outubro de 1861, meses antes do artigo Frenologia espiritualista e espírita — Perfectibilidade da raça negra, Kardec declarou em Lyon que o Espiritismo, ao restituir ao Espírito seu papel e estabelecer a superioridade da inteligência sobre a matéria, deveria eliminar as distinções humanas fundadas em vantagens corporais.

Na mesma passagem, atribuiu ao orgulho:

“as castas e os estúpidos preconceitos de cor”.

A cronologia é relevante:

outubro de 1861: Kardec condena explicitamente os preconceitos de cor;

abril de 1862: publica Perfectibilidade da raça negra.

Portanto, qualquer interpretação do segundo texto precisa ser compatível com o fato documental de que Kardec já havia condenado o preconceito racial antes de escrevê-lo.

Isso não demonstra que suas concepções antropológicas posteriores sejam cientificamente aceitáveis.

Demonstra algo diferente: o objetivo do artigo de 1862 não pode ser simplesmente identificado com uma tentativa de legitimar moralmente o preconceito de cor, pois essa interpretação entraria em conflito direto com uma declaração explícita e anterior do próprio autor.

Para Kardec, aparentemente, duas proposições diferentes podiam coexistir:

  1. determinados grupos humanos poderiam encontrar-se em condições diferentes de desenvolvimento ou apresentar diferentes aptidões;
  2. essas diferenças não autorizavam castas, escravidão ou preconceito baseado na cor.

É essa combinação, hoje pouco intuitiva, que precisa ser reconstruída historicamente.


3. O século XIX e a categoria científica de “raça”

Uma dificuldade fundamental na leitura desses textos está no significado da própria palavra raça.

O leitor contemporâneo conhece um estado das ciências biológicas em que as categorias raciais tradicionais não são consideradas divisões biológicas discretas da espécie humana. A antropologia biológica contemporânea enfatiza que a variação humana não se distribui segundo unidades raciais naturais equivalentes às classificações sociais de “brancos”, “negros”, “asiáticos” e outras.

Esse conhecimento, contudo, é posterior a Kardec.

Na metade do século XIX, “raça” fazia parte do vocabulário científico regular da antropologia.

Pesquisadores procuravam classificar grupos humanos segundo características físicas, origens presumidas, crânios, anatomia e outros atributos.

A questão relevante para uma análise histórica não é, inicialmente:

essas categorias estavam corretas?

Mas:

qual estatuto possuíam dentro das ciências que Kardec conhecia?

E a resposta é que tinham estatuto científico relevante.

Isso não significa que houvesse unanimidade. A antropologia oitocentista estava atravessada por controvérsias profundas.

Mas significa que um pesquisador francês da década de 1860 podia empregar categorias raciais e discutir diferenças orgânicas entre “raças” sem considerar que estava abandonando o terreno científico.

Essa constatação é essencial para compreender Kardec sem transportar automaticamente para 1862 o estado da antropologia e da genética dos séculos XX e XXI.


4. “Perfectibilidade das raças”: uma questão científica contemporânea a Kardec

O próprio título do artigo de 1862 precisa ser contextualizado.

Kardec escreve sobre a:

“Perfectibilidade da raça negra”.

A expressão “perfectibilidade das raças” não era uma criação propriamente espírita.

Em 1860, poucos anos depois da fundação da Société d’Anthropologie de Paris, a instituição discutia formalmente a perfectibilidade das raças.

Paul Broca, uma das principais figuras da antropologia física francesa, participou desse ambiente de discussão sobre as possíveis diferenças de desenvolvimento entre populações humanas.

A proximidade temporal é evidente:

1860: discussão antropológica sobre a perfectibilidade das raças;

1862: Kardec publica Perfectibilidade da raça negra.

Isso não permite afirmar que Kardec tenha copiado Broca ou mesmo que o tenha utilizado diretamente como fonte.

Sem evidência documental específica, essa genealogia seria especulativa.

O que a coincidência demonstra é algo mais seguro:

a pergunta que Kardec procura responder pertencia a um debate científico efetivamente existente na França de sua época.

A investigação não começa, portanto, com uma doutrina espírita afirmando que determinado grupo racial seria naturalmente inferior.

Kardec entra em uma questão que já estava colocada pela antropologia contemporânea e procura examiná-la segundo sua própria concepção espiritualista.


5. A posição de Kardec diante da frenologia

A frenologia desempenha papel central nessa construção.

Mas também aqui é necessário evitar uma simplificação.

Kardec não aceitava a frenologia como ciência concluída e integralmente demonstrada.

Em julho de 1860, ao tratar do tema, escreve que não pretendia decidir se ela era verdadeira ou exagerada em todas as suas consequências e reconhece explicitamente que:

“certos detalhes ainda são hipotéticos”.

Ao mesmo tempo, afirma que ela repousaria sobre aquilo que considerava um “princípio incontestável”: a relação entre o desenvolvimento ou a atrofia cerebral e as manifestações intelectuais.

Sua posição, portanto, não era de rejeição.

Kardec considerava que a frenologia possuía um núcleo válido, embora julgasse que várias de suas aplicações e consequências ainda precisassem ser examinadas.

Em 1862, sua adesão a determinada forma de especialização cerebral aparece de maneira ainda mais direta:

“Ela admite órgãos especiais para cada faculdade, e pensamos que esteja certa.”

Ao propor depois sua própria hipótese sobre fibras nervosas e diferentes nuances das faculdades, porém, acrescenta que aquilo:

“não passa de uma hipótese”.

Há, portanto, diferentes graus de certeza dentro do próprio discurso de Kardec.

Ele não trata a frenologia como um bloco homogêneo.


6. Frenologia não significava, para Kardec, materialismo

Esse ponto é fundamental para evitar um erro de interpretação.

Uma das formas de frenologia que Kardec combate é aquela que transformava o cérebro na causa das faculdades.

Segundo essa interpretação:

determinada estrutura cerebral produziria determinada aptidão intelectual ou moral.

Kardec considera essa conclusão materialista e a rejeita violentamente.

No artigo de 1862, chama essa concepção de:

“monstruosa doutrina”.

A posição espiritualista que ele adota inverte a relação causal.

As faculdades pertencem ao Espírito.

O cérebro é o instrumento pelo qual essas faculdades se manifestam durante a encarnação.

Kardec escreve que os órgãos cerebrais:

“não são a causa das faculdades, mas os instrumentos das manifestações das faculdades”.

Portanto, sua interpretação não pode ser reconstruída adequadamente como:

um cérebro racialmente inferior produz uma inteligência inferior.

Isso seria justamente a tese materialista que ele rejeita.

O problema que Kardec procura resolver é outro:

se existem diferenças orgânicas entre as raças e se essas diferenças condicionam manifestações intelectuais, como explicá-las sem fazer da matéria a causa da inteligência?


7. “A frenologia nos servirá de ponto de partida”

O começo do artigo de 1862 deixa claro esse procedimento.

Kardec afirma que pretende examinar problemas que considerava insolúveis:

“com o auxílio dos dados atuais da Ciência”.

E então declara:

“A frenologia nos servirá de ponto de partida.”

É importante compreender exatamente o que isso significa.

Kardec não afirma que a ciência de seu tempo já possuía todos os elementos necessários para resolver a questão.

Ao contrário, julga-a insuficiente.

Seu argumento é que as ciências que consideravam somente a matéria não poderiam explicar integralmente aquilo que observavam.

Ele pretende, então, acrescentar um segundo elemento: o Espírito.

Sua operação intelectual é, portanto, uma tentativa de integração.

Parte de proposições antropológicas e fisiológicas que considera suficientemente plausíveis e procura reconstruí-las dentro de uma ontologia espiritualista.


8. A hipótese do organismo como instrumento

O núcleo dessa construção pode ser representado pela metáfora utilizada pelo próprio Kardec.

Um músico pode possuir grande capacidade, mas não conseguir manifestá-la plenamente se o instrumento que utiliza for inadequado.

A deficiência do instrumento não significa deficiência do músico.

Aplicando essa comparação à encarnação:

o Espírito seria o músico;

o organismo seria o instrumento.

Kardec aplica essa lógica às diferenças que a antropologia de seu tempo atribuía às populações humanas.

Se determinados organismos apresentassem, segundo aquela ciência, menor desenvolvimento de certas estruturas cerebrais, isso não significaria que a matéria tivesse produzido um Espírito inferior.

Significaria que determinado Espírito disporia, naquela encarnação, de um instrumento com possibilidades específicas de manifestação.

É dentro desse modelo que precisam ser lidas as passagens mais difíceis do artigo.


9. O que Kardec entendia por “inferior”

O vocabulário de Kardec exige particular atenção.

Em diversos textos ele utiliza expressões como:

  • Espírito inferior;
  • povo inferior;
  • raça inferior;
  • grau inferior;
  • mundo inferior.

No sistema espírita, “inferior” não significa necessariamente uma natureza ontológica distinta ou uma inferioridade eterna.

O princípio geral é o progresso.

O estado primitivo é descrito como uma etapa transitória da humanidade, da qual o homem se afasta à medida que desenvolve suas capacidades intelectuais e morais.

Isso é importante para compreender a passagem de 1862 em que Kardec escreve:

“Como Espíritos, são inquestionavelmente uma raça inferior, isto é, primitiva.”

A expressão é extremamente problemática para o leitor atual, sobretudo porque associa uma classificação racial concreta a um suposto estágio espiritual.

Mas o complemento:

“isto é, primitiva”

mostra como Kardec estava empregando “inferior” dentro de sua teoria progressiva.

Não se tratava, para ele, de seres feitos de uma substância espiritual inferior.

Tratava-se de Espíritos que julgava encontrar-se num estágio anterior de desenvolvimento.

Essa distinção não precisa ser aceita como verdadeira para ser historicamente compreendida.


10. A questão 831 e a “desigualdade natural das aptidões”

Também é importante reconhecer que a ideia de diferenças de aptidão entre grupos humanos não surge exclusivamente no artigo frenológico de 1862.

Em O Livro dos Espíritos, questão 831, Kardec pergunta:

“A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência das raças mais inteligentes?”

A resposta aceita a existência dessa desigualdade, mas rejeita que ela legitime a escravização.

A finalidade das mais aptas deveria ser elevar as demais, e não:

“embrutecê-las ainda mais pela escravização”.

A resposta termina afirmando:

“Mais ou menos puro não é o sangue, porém o Espírito.”

Essa passagem é particularmente elucidativa porque contém, lado a lado, dois elementos que hoje podem parecer incompatíveis:

uma hierarquia de aptidões atribuída às raças

e

a rejeição de uma hierarquia essencial baseada no sangue, bem como da escravidão.

É justamente essa combinação que caracteriza o problema histórico.

Seria incorreto eliminar o primeiro elemento para apresentar Kardec como se possuísse nossa concepção contemporânea de diversidade humana.

Mas seria igualmente incorreto eliminar o segundo e reconstruí-lo como defensor de uma desigualdade racial absoluta.


11. O sentido da “perfectibilidade”

A pergunta de Kardec em 1862 é:

a raça negra é perfectível?

Essa pergunta precisa ser lida dentro das categorias de seu período.

“Perfectibilidade” designava a capacidade de determinado povo ou raça de modificar-se, desenvolver-se e alcançar graus considerados superiores de civilização e inteligência.

Kardec começa apresentando uma posição extrema, que afirma que os negros seriam:

“uma raça inferior, incorrigível, profundamente incapaz”.

Mas essa formulação é introduzida por:

“Diz-se a respeito dos negros escravos…”

Ou seja, Kardec está expondo uma posição existente.

Logo depois afirma:

“A teoria que acabamos de apresentar permite encará-los sob outro prisma.”

Portanto, “incorrigível” não é a conclusão kardeciana.

A função da reencarnação em seu argumento é precisamente tornar a condição transitória.

O Espírito poderia desenvolver-se ao longo de existências sucessivas.

Aquilo que ele considerava limitado era o organismo de determinada encarnação, não o destino final do Espírito.


12. Onde a construção de Kardec se torna especificamente racial

É aqui, porém, que surge a parte mais delicada da teoria.

Kardec não se limita a dizer que diferentes indivíduos possuem organismos diferentes.

Ele associa determinados tipos de organização corporal às categorias raciais empregadas pela antropologia de sua época.

Segundo seu argumento, determinados corpos classificados como pertencentes a raças consideradas menos desenvolvidas teriam possibilidades menores de manifestação intelectual.

Assim, enquanto o Espírito poderia continuar progredindo, determinado “envoltório” corporal teria limites próprios.

Essa construção aparece explicitamente no artigo de 1862.

Vista de dentro do quadro conceitual que Kardec aceitava naquele momento, a argumentação possui uma coerência identificável:

  • a ciência de sua época classifica a humanidade em raças;
  • determinadas correntes relacionam essas raças a diferenças orgânicas;
  • a frenologia relaciona organização cerebral e manifestação das faculdades;
  • Kardec rejeita que o cérebro produza inteligência;
  • então interpreta essas diferenças como limitações instrumentais do corpo, não como diferenças de natureza do Espírito;
  • a reencarnação garante que nenhum Espírito permaneça indefinidamente preso a determinada condição.

Essa reconstrução histórica é importante porque mostra como Kardec chegou à conclusão, em vez de apenas confrontar a conclusão com o conhecimento contemporâneo.


13. A raça não constitui identidade permanente do Espírito

Outro elemento do sistema impede interpretar essas categorias como “raças espirituais” permanentes.

A reencarnação faz com que o Espírito possa ocupar sucessivamente corpos pertencentes a populações distintas.

Essa possibilidade aparece de maneira particularmente clara em um texto de 1866.

Comentando o caso de um negro dotado de extraordinárias capacidades, Kardec admite como explicação possível a reencarnação:

“não de um negro num negro, mas de branco num negro”.

Quando antecipa a objeção de que isso representaria uma retrogradação, responde:

“não retrogradação do Espírito, pois teria conservado suas aptidões e suas aquisições”.

A passagem demonstra que, para Kardec, ser negro ou branco não era atributo permanente do Espírito.

O corpo poderia mudar.

As aquisições espirituais permaneceriam.

Esse ponto é indispensável para não transformar sua teoria corporal das raças em uma doutrina de espécies espirituais racialmente distintas.


14. Uma tensão interna interessante

O texto de 1866 também cria uma dificuldade dentro da construção de 1862.

Se um Espírito que tivesse desenvolvido grandes aptidões numa existência anterior poderia encarnar negro e conservar suas aquisições, até que ponto o organismo racial limitaria efetivamente sua manifestação?

A teoria de Kardec poderia responder que conservar a faculdade espiritualmente não significa necessariamente manifestá-la corporalmente em toda a sua extensão.

Isso preservaria a metáfora do músico e do instrumento.

Ainda assim, o texto mostra que sua reflexão não deve ser apresentada como um sistema antropológico absolutamente rígido e uniforme.

Kardec procura ajustar diferentes observações à sua teoria da reencarnação e da relação entre Espírito e organismo.

Algumas dessas formulações permanecem em tensão.

Reconhecê-las é mais historicamente adequado do que tentar eliminar toda inconsistência retrospectivamente.


15. A hipótese permanece em A Gênese

Também não seria correto considerar o artigo de 1862 uma especulação passageira posteriormente abandonada.

Em A Gênese, publicada em 1868, Kardec retoma explicitamente o tema.

Afirma que as:

“raças mais inteligentes”

teriam avançado mais rapidamente e sustenta que Espíritos em progresso poderiam chegar a um ponto em que determinados corpos deixariam de corresponder ao grau alcançado.

Refere-se então a corpos de determinada “raça física” como inadequados a certo desenvolvimento intelectual e moral e remete diretamente ao artigo Perfectibilidade da raça negra, de 1862.

Isso possui importância historiográfica.

A associação entre condição racial, organismo e manifestação espiritual não permaneceu apenas numa página circunstancial da Revista Espírita.

Kardec continuou considerando a construção suficientemente válida para incorporá-la a uma obra de síntese publicada seis anos depois.

Qualquer análise séria precisa reconhecer esse fato.


16. Isso significa que Kardec defendia o preconceito racial?

Os documentos não autorizam essa conclusão de maneira simples.

Kardec utilizou categorias raciais hierarquizadas e admitiu diferenças de aptidão entre grupos humanos.

Isso está documentado.

Mas também estão documentadas:

  • sua condenação da escravidão;
  • sua rejeição da pureza espiritual associada ao sangue;
  • sua afirmação de que todos os homens pertencem à mesma família;
  • sua concepção de que todos tendem ao mesmo destino;
  • sua rejeição de uma inferioridade espiritual eterna;
  • sua condenação explícita das castas e dos “estúpidos preconceitos de cor”.

Portanto, reduzir todo esse conjunto documental à afirmação:

“Kardec acreditava na inferioridade dos negros e era racista”

pode obscurecer tanto quanto uma tentativa apologética de negar as passagens problemáticas.

Há uma diferença entre identificar proposições racialmente hierarquizantes e reconstruir a concepção moral global de um autor.

Kardec aparentemente não entendia que admitir diferenças naturais de aptidão implicasse negar a fraternidade, justificar a escravidão ou cultivar preconceito de cor.

Essa combinação pertence ao horizonte intelectual que precisa ser compreendido antes de ser avaliado.


17. Racismo e racialismo: cuidado com categorias posteriores

O termo racismo, especialmente em seu sentido contemporâneo, possui uma história própria.

Aplicá-lo retrospectivamente pode ser legítimo, desde que se explique exatamente o que se está classificando.

Se racismo for definido como qualquer crença na existência de hierarquias naturais entre grupos racialmente classificados, diversas afirmações de Kardec podem receber essa classificação a partir de critérios atuais.

Se, porém, o termo for utilizado para sugerir defesa da escravidão, segregação, preconceito de cor ou desigualdade espiritual essencial, essa caracterização entra em conflito com outras declarações explícitas do próprio Kardec.

Por isso, para fins de história intelectual, pode ser mais informativo descrever primeiro as proposições concretas e só depois discutir o rótulo.

O termo racialismo pode ajudar a indicar a aceitação de uma classificação da humanidade em raças dotadas de características diferentes, sem por isso resolver automaticamente toda a questão moral envolvida.

Mas também precisa ser utilizado com cuidado.

Não deve funcionar como eufemismo para tornar inofensivas ideias que efetivamente estabeleciam hierarquias humanas.

A prioridade analítica deve permanecer sobre as proposições, não sobre o rótulo pessoal.


18. O que mudou posteriormente nas ciências

Somente depois de reconstruído esse horizonte histórico é adequado introduzir o conhecimento posterior.

A antropologia biológica e a genética contemporâneas não descrevem a humanidade segundo o modelo de raças biológicas discretas empregado por grande parte da antropologia do século XIX.

A variação biológica humana existe, evidentemente, e diferentes populações apresentam diferentes frequências genéticas e histórias de ancestralidade.

O que não se sustenta é a divisão da espécie em conjuntos raciais naturais, homogêneos e delimitados correspondentes às tradicionais categorias sociais de “branco”, “negro” e outras.

A American Association of Biological Anthropologists resume essa posição afirmando que as categorias raciais não representam adequadamente a variação biológica humana e que as populações humanas não constituem tipos continentais biologicamente discretos.

Isso modifica profundamente o estatuto das premissas utilizadas pela antropologia racial do século XIX.

Portanto, aquilo que para Kardec podia funcionar como questão científica — qual seria a capacidade orgânica própria de determinada raça? — deixou de ser formulado dessa maneira pelas ciências contemporâneas.

Esse é o ponto em que uma avaliação retrospectiva pode legitimamente começar.


19. A revisão não exige supor irracionalidade em Kardec

Há uma diferença importante entre dizer:

Kardec raciocinou de maneira irracional

e dizer:

parte das premissas científicas sobre as quais ele raciocinou deixou de ser aceita posteriormente.

As duas afirmações não são equivalentes.

Se partirmos das premissas que Kardec considerava plausíveis:

  • existência de raças humanas biologicamente distinguíveis;
  • diferenças orgânicas entre elas;
  • relação entre estrutura cerebral e manifestação intelectual;
  • independência do Espírito em relação ao corpo;

sua tentativa de explicar essas diferenças pela relação entre Espírito e instrumento corporal possui coerência interna.

A fragilidade retrospectivamente identificável encontra-se principalmente no estatuto das premissas antropológicas e fisiológicas utilizadas.

Uma vez modificadas essas premissas, perde-se a necessidade da construção específica destinada a explicá-las.

Isso constitui um caso interessante de dependência de uma teoria em relação ao conhecimento auxiliar disponível numa determinada época.


20. Kardec e a ciência em construção

Esse ponto ganha importância porque o próprio Kardec reconhecia que a frenologia ainda continha elementos hipotéticos.

Em 1860, sua atitude não era a de sacralizar a disciplina, mas a de investigar aquilo que nela pudesse ser verdadeiro e aquilo que pudesse ser falso.

Isso oferece uma chave metodológica para a questão.

Se uma explicação espírita foi construída em associação com determinado conhecimento científico e esse conhecimento posteriormente se modifica, não é necessário transformar aquela aplicação histórica numa afirmação imutável.

É possível distinguir:

o princípio filosófico geral

da

aplicação construída a partir do conhecimento científico disponível.

No caso analisado, a distinção entre Espírito e organismo pertence à arquitetura geral do sistema espírita.

Já a proposição de que determinados organismos racialmente classificados oferecem capacidades intelectuais naturalmente distintas depende de uma antropologia específica.

Essas duas afirmações não possuem necessariamente o mesmo estatuto.


21. Anténor Firmin e a transformação do debate ainda no século XIX

Também seria incorreto representar toda a ciência oitocentista como uniformemente racialista.

Anténor Firmin é um exemplo importante.

Nascido em 1850, ingressou na Société d’Anthropologie de Paris em 1884 e publicou em 1885 De l’égalité des races humaines — Anthropologie positive, obra de crítica às teorias antropológicas de desigualdade racial.

A cronologia, entretanto, precisa ser respeitada.

A obra de Firmin foi publicada:

23 anos depois do artigo de Kardec de 1862

e

16 anos depois da morte de Kardec.

Firmin não pode, portanto, ser utilizado como se fornecesse a Kardec uma refutação que este teria deliberadamente ignorado.

Sua importância é diferente.

Ele mostra que o próprio século XIX não era intelectualmente imóvel e que as concepções raciais discutidas por Kardec também seriam submetidas, posteriormente dentro do mesmo século, a críticas sistemáticas.

A ciência que forneceu a Kardec determinadas categorias continuou transformando-se depois dele.


22. Como interpretar historicamente o problema

Uma análise equilibrada precisa conservar simultaneamente vários fatos.

Kardec:

  • utilizava a classificação racial corrente em seu século;
  • admitia diferenças naturais de aptidão entre grupos classificados como raças;
  • aceitou parte importante da relação frenológica entre cérebro e manifestação das faculdades;
  • rejeitou a interpretação materialista dessa relação;
  • construiu uma teoria na qual diferentes organismos funcionariam como instrumentos diferentes para Espíritos em graus distintos;
  • associou essa construção a populações humanas concretas;
  • manteve parte dessa interpretação até A Gênese.

Ao mesmo tempo:

  • considerava todos os homens membros da mesma família humana;
  • não concebia raças espirituais permanentes;
  • admitia que um Espírito pudesse encarnar negro ou branco;
  • afirmava que todos os Espíritos estavam submetidos ao progresso;
  • condenava a escravidão;
  • rejeitava a pureza do sangue como valor espiritual;
  • qualificava os preconceitos de cor como produto do orgulho.

Nenhum desses fatos precisa ser eliminado para tornar os demais compreensíveis.

A complexidade está justamente em sua coexistência.


Conclusão

As afirmações de Allan Kardec sobre as chamadas raças humanas precisam ser estudadas primeiro como documentos do século XIX e somente depois avaliadas à luz do desenvolvimento posterior do conhecimento.

Kardec escreveu num período em que “raça” constituía categoria científica regular da antropologia física e em que instituições e pesquisadores importantes discutiam diferenças orgânicas, intelectuais e de “perfectibilidade” entre populações humanas.

Nesse ambiente, a pergunta sobre uma eventual diferença natural de capacidades entre raças não possuía o mesmo estatuto epistemológico que possui atualmente.

Kardec não aceitou passivamente todas as conclusões dessas ciências.

Em relação à frenologia, considerava alguns princípios suficientemente fundamentados, outros ainda hipotéticos e rejeitava radicalmente sua interpretação materialista.

Sua contribuição específica foi tentar articular aquilo que considerava dados ou hipóteses científicos com sua concepção da independência do Espírito.

Se a inteligência pertence ao Espírito e o cérebro é seu instrumento, então as diferenças orgânicas que a ciência daquele período julgava encontrar entre as raças precisariam ser interpretadas como diferenças de instrumento, e não como diferentes naturezas espirituais.

É dentro dessa lógica que surge a teoria apresentada em 1862.

Kardec efetivamente associou determinados grupos humanos a graus diferentes de desenvolvimento e admitiu que organismos racialmente classificados oferecessem diferentes possibilidades de manifestação intelectual.

Essa concepção não ficou restrita ao artigo da Revista Espírita: elementos dela reaparecem em A Gênese, em 1868.

Mas interpretar essas afirmações como demonstração suficiente de que Kardec pretendia estabelecer uma doutrina moral de inferioridade racial ignora outros elementos igualmente documentados de sua obra.

Kardec afirmava a unidade da família humana, rejeitava qualquer pureza espiritual fundada no sangue, condenava a escravidão, admitia a reencarnação entre diferentes condições raciais e, antes mesmo do artigo de 1862, qualificava os preconceitos de cor como “estúpidos” e derivados do orgulho.

Seu pensamento combina, portanto, elementos que hoje tendemos a separar: uma antropologia racialmente hierarquizada e uma ética de fraternidade espiritual que rejeita o preconceito fundado na raça.

Essa combinação precisa ser compreendida dentro de seu tempo antes de ser julgada fora dele.

O desenvolvimento posterior da antropologia e da genética modificou profundamente o quadro científico que sustentava aquelas classificações. As tradicionais raças humanas deixaram de ser compreendidas como unidades biológicas discretas dotadas de capacidades intelectuais naturais próprias.

Nesse novo quadro, a pergunta antropológica sobre a qual Kardec construiu parte de sua explicação deixou de possuir o mesmo fundamento.

Não é necessário, contudo, concluir daí que seu raciocínio fosse simplesmente irracional.

Mais precisamente, uma construção internamente coerente foi elaborada sobre premissas científicas historicamente situadas cujo estatuto mudou com o desenvolvimento posterior do conhecimento.

Essa distinção é central para uma avaliação não anacrônica.

Ela permite reconhecer sem disfarces aquilo que Kardec efetivamente escreveu, compreender por que suas afirmações podiam parecer plausíveis dentro de determinado horizonte científico e, ao mesmo tempo, reconhecer que esse horizonte não permaneceu intacto.

O caso oferece, assim, um exemplo particularmente importante da relação entre Espiritismo e ciência na obra kardeciana.

Quando uma explicação espírita incorpora elementos provenientes das ciências de uma época, ela também passa a compartilhar, em alguma medida, da provisoriedade desses elementos.

Se esses conhecimentos forem posteriormente reformulados, as aplicações que deles dependem precisam igualmente ser reexaminadas.

Isso não constitui necessariamente uma ruptura com o método de Kardec.

Pode ser entendido como consequência dele.

A análise historicamente mais rigorosa, portanto, não exige transformar Kardec nem em um autor infalível que antecipou o conhecimento atual, nem em um personagem deslocado de seu próprio século e julgado como se tivesse à disposição a antropologia e a genética contemporâneas.

Exige algo mais difícil: compreender o que ele pensou a partir das possibilidades intelectuais de seu tempo, distinguir o que pertencia ao núcleo de sua filosofia daquilo que dependia das ciências então disponíveis e acompanhar criticamente o que ocorreu quando essas próprias ciências se transformaram.

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Teoria das Manifestações Físicas https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/teoria-das-manifestacoes-fisicas/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/teoria-das-manifestacoes-fisicas/#respond Sun, 05 Jul 2026 15:24:47 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=292 Propomos analisar o artigo “Teoria das Manifestações Físicas”, publicado na Revista Espírita de maio de 1858. Esse texto marca um momento importante na construção do pensamento de Kardec. Depois de observar e reunir numerosos fatos, ele procura sistematizar uma explicação para os fenômenos físicos, organizando-os em um modelo explicativo coerente.Muitas pessoas leem esse artigo procurando […]

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Propomos analisar o artigo “Teoria das Manifestações Físicas”, publicado na Revista Espírita de maio de 1858. Esse texto marca um momento importante na construção do pensamento de Kardec. Depois de observar e reunir numerosos fatos, ele procura sistematizar uma explicação para os fenômenos físicos, organizando-os em um modelo explicativo coerente.
Muitas pessoas leem esse artigo procurando uma confirmação de suas próprias crenças — sejam favoráveis ou contrárias ao Espiritismo. Nós faremos o caminho inverso. Vamos lê-lo como se ainda não conhecêssemos o restante da obra de Kardec. Assim, acompanharemos seu raciocínio passo a passo, avaliando cada argumento por seus próprios méritos e distinguindo cuidadosamente o que ele apresenta como fato observado, hipótese explicativa ou conclusão.

Nosso objetivo não é provar que Kardec estava certo nem demonstrar que estava errado. É compreender como ele construiu seu raciocínio e avaliar a consistência de seus argumentos a partir do próprio texto.

O artigo “Teoria das Manifestações Físicas” foi escrito em maio de 1858, um ano após a publicação de O Livro dos Espíritos. A Revista Espírita estava apenas em seu quinto mês de existência. Os fenômenos físicos atribuídos aos Espíritos já eram amplamente conhecidos. Muitos os aceitavam como reais; outros os atribuíam à fraude, à prestidigitação, ao magnetismo ou a causas ainda desconhecidas. O que faltava era uma teoria capaz de explicá-los.

É justamente nesse ponto que Kardec inicia sua investigação. A pergunta deixa de ser se os fenômenos existiam e passa a ser outra:

O que ainda precisava ser explicado?

Kardec não pretendia demonstrar a existência dos Espíritos. Ele toma essa hipótese como ponto de partida para enfrentar um problema diferente:

Como um Espírito consegue produzir um efeito físico sobre a matéria?

É justamente aí que começa sua investigação. Este não é um artigo destinado a demonstrar a existência dos Espíritos, mas a construir um modelo explicativo para a ação deles sobre a matéria.

Para isso, Kardec parte de um conjunto de fatos que considera suficientemente observados para servir de base ao seu raciocínio. É importante notar que ele não tenta demonstrar esses fatos neste artigo. Segundo o próprio Kardec, eles já estavam suficientemente estabelecidos por observações, relatos mediúnicos e experiências repetidas. Seu interesse agora é outro: compreender o mecanismo capaz de explicá-los.

Esses fatos podem ser agrupados em três categorias.

A primeira é formada pelos relatos dos próprios Espíritos sobre sua condição após a morte. Segundo esses relatos, o Espírito continua existindo após a morte do corpo físico, passa por um período inicial de perturbação, conserva sua individualidade e mantém uma aparência semelhante à que possuía durante a vida. Esses elementos serão fundamentais para que Kardec introduza, mais adiante, a ideia de um envoltório semimaterial.

A segunda categoria reúne as aparições e manifestações tangíveis. Kardec menciona aparições, mãos visíveis e tangíveis, toques, pressão sobre o corpo, beliscões e marcas produzidas por essas manifestações. Esses fenômenos levantam uma questão importante: se um Espírito pode ser visto e até tocar uma pessoa, de que maneira isso seria possível?

A terceira categoria compreende os chamados efeitos físicos: movimento de objetos, deslocamento de móveis, pancadas, toque espontâneo de instrumentos musicais, movimento das teclas de pianos e acordeões e transporte de objetos. Para Kardec, esses fenômenos indicariam a existência de uma ação inteligente atuando sobre a matéria.

Perceba que esses três conjuntos de observações ainda não constituem uma teoria. Eles representam apenas o material que Kardec pretende explicar.

Esse detalhe é fundamental para compreender o artigo. Kardec não procura provar cada um desses fatos. Ele os considera suficientemente estabelecidos e passa imediatamente à pergunta que realmente lhe interessa:

Qual mecanismo poderia explicar todos esses fenômenos por meio de uma única teoria?

O artigo não é uma investigação sobre a realidade das manifestações físicas, mas uma tentativa de construir um modelo capaz de explicá-las. A discussão deixa de ser “os fenômenos aconteceram?” e passa a ser “admitindo que aconteceram, como poderiam ocorrer?”. Essa mudança de foco orienta todo o desenvolvimento do texto e revela o verdadeiro objetivo de Kardec: construir um modelo racional capaz de explicar a ação dos Espíritos sobre a matéria.

Até aqui, Kardec apresentou o problema que pretende resolver e os fatos que considera suficientemente observados para servir de base ao seu raciocínio. A partir desse momento, ele passa efetivamente a construir sua teoria.

O primeiro passo consiste em revisar a própria definição de Espírito. Segundo Kardec, a dificuldade em compreender as manifestações físicas nasce da ideia de que o Espírito seria absolutamente imaterial. Se isso fosse verdade, não haveria qualquer possibilidade de agir sobre a matéria. Assim, a primeira hipótese que ele rejeita é justamente essa definição tradicional.

Em seu lugar, propõe que o Espírito seja revestido por um envoltório semimaterial, denominado perispírito. Esse conceito torna-se a peça central de toda a sua explicação.

Segundo Kardec, o perispírito conserva a forma do corpo físico, acompanha o Espírito após a morte e possui propriedades que lhe permitem expandir-se, contrair-se e condensar-se. Graças a essas características, poderia tornar-se perceptível aos sentidos, adquirir tangibilidade e atuar sobre a matéria.

Observe que Kardec não cria o conceito de perispírito para explicar apenas um fenômeno específico. Sua intenção é muito mais ampla: encontrar uma única hipótese capaz de explicar aparições, manifestações tangíveis, movimentação de objetos, pancadas e o toque de instrumentos musicais. Em vez de formular uma explicação diferente para cada fenômeno, procura um princípio comum capaz de explicar todos eles.

Outro aspecto importante merece destaque. Em todo o artigo, Kardec parte do pressuposto de que os fenômenos possuem causas naturais, ainda que essas causas permaneçam desconhecidas. Para ele, a existência de um mecanismo ainda não compreendido não transforma um fenômeno em sobrenatural; significa apenas que o conhecimento humano ainda é insuficiente para explicá-lo.

Reconstruída a teoria proposta por Kardec, resta avaliar sua consistência interna. A questão agora não é saber se ela é verdadeira, mas se suas conclusões decorrem logicamente das premissas estabelecidas ao longo do artigo.

O raciocínio desenvolve-se de maneira progressiva. Kardec parte da existência dos fenômenos físicos, rejeita a ideia de um Espírito absolutamente imaterial, introduz o conceito de perispírito e atribui a esse envoltório propriedades capazes de explicar a ação sobre a matéria. Cada etapa depende da anterior. Se uma dessas premissas for retirada, toda a construção teórica perde sustentação.

Consideradas as premissas adotadas por Kardec, o modelo mostra boa coerência interna. Entretanto, coerência lógica não significa demonstração. Alguns conceitos aparecem como hipóteses explicativas, especialmente aqueles relacionados às propriedades do perispírito e à possibilidade de sua condensação.

Essa observação conduz naturalmente a outro aspecto importante do artigo. Kardec não apresenta sua teoria como definitiva. Ao contrário, reconhece explicitamente que ainda existem questões sem resposta.

O exemplo mais evidente diz respeito à condensação do perispírito. Kardec admite que essa hipótese permite compreender como um Espírito poderia tornar-se visível ou tangível, mas não explica de que maneira esse processo ocorre. O mecanismo permanece em aberto.

Essa distinção merece atenção. Kardec considera que a hipótese é capaz de explicar os fenômenos observados, mas reconhece que ainda desconhece o processo pelo qual ela se realiza. Em outras palavras, distingue a proposta explicativa do mecanismo que lhe daria sustentação.

Essa postura reaparece no encerramento do artigo, quando afirma que ainda restam questões importantes a serem examinadas, como o processo de modificação da substância etérea do perispírito, a forma pela qual o Espírito exerce essa ação e o papel desempenhado pelos médiuns de efeitos físicos.

Ao longo dessa construção, alguns conceitos assumem papel central: Espírito, alma, perispírito, condensação e tangibilidade. Outros funcionam como conceitos auxiliares, como aparência, perturbação, desprendimento, vontade, fluido e força. Em conjunto, eles formam a estrutura do modelo explicativo elaborado por Kardec.

Essa estrutura pode ser resumida da seguinte forma:

Espírito → Perispírito → Conservação da Forma → Condensação → Tangibilidade → Ação sobre a Matéria → Manifestações Físicas

Esse esquema sintetiza o percurso lógico desenvolvido ao longo do artigo. Cada conceito prepara o seguinte e todos convergem para responder à pergunta que orienta a investigação: como um Espírito pode produzir efeitos físicos sobre a matéria?

Ao final da leitura, percebe-se que “Teoria das Manifestações Físicas” não pretende oferecer uma explicação definitiva para todos os fenômenos estudados por Kardec. Seu objetivo é construir um modelo racional capaz de unificar observações dispersas em uma única estrutura explicativa. Independentemente da concordância com suas conclusões, o artigo revela um esforço sistemático de organizar os fenômenos segundo uma sequência lógica, distinguindo observações, hipóteses e consequências.

Mais do que apresentar respostas, esse artigo mostra Kardec em pleno processo de construção de uma teoria. É justamente essa passagem da observação para a elaboração de um modelo explicativo que faz de “Teoria das Manifestações Físicas” um dos textos mais importantes da Revista Espírita de 1858.

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A arquitetura da argumentação de Kardec https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/a-arquitetura-da-argumentacao-de-kardec/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/a-arquitetura-da-argumentacao-de-kardec/#respond Sun, 05 Jul 2026 13:10:53 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=290 Ler Allan Kardec é acompanhar um raciocínio em construção. Longe de apresentar conclusões prontas, ele conduz o leitor por uma sequência de perguntas, objeções, exemplos, analogias e conclusões que se encadeiam com notável coerência. Ao final da leitura, percebe-se que a força de seus textos não reside apenas nas conclusões a que chega, mas na […]

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Ler Allan Kardec é acompanhar um raciocínio em construção. Longe de apresentar conclusões prontas, ele conduz o leitor por uma sequência de perguntas, objeções, exemplos, analogias e conclusões que se encadeiam com notável coerência. Ao final da leitura, percebe-se que a força de seus textos não reside apenas nas conclusões a que chega, mas na maneira como as constrói.

O artigo A Pluralidade dos Mundos, publicado na Revista Espírita de março de 1858, constitui um excelente exemplo desse método de argumentação. Essa forma de argumentar não é fruto do acaso: Kardec organiza seu raciocínio de maneira progressiva. Em vez de iniciar pela conclusão que pretende defender, apresenta o problema, expõe as principais objeções e somente depois passa a examiná-las. O leitor não é convidado a aceitar uma afirmação, mas a percorrer um caminho lógico junto com o autor.


1. Começar pela pergunta


É exatamente isso que encontramos logo nas primeiras linhas de A Pluralidade dos Mundos. Kardec não inicia afirmando que existem habitantes em outros planetas. Ao contrário, apresenta a pergunta que serve de ponto de partida para toda a discussão:

“Quem ainda não se perguntou, ao considerar a Lua e os outros astros, se esses globos são habitados?”
Revista Espírita, março de 1858.

Observe que Kardec não oferece uma resposta imediata. Antes de defender qualquer conclusão, ele convida o leitor a refletir sobre o problema e, em seguida, apresenta as principais objeções formuladas pela astronomia de sua época. A Lua pareceria não possuir atmosfera nem água; Mercúrio seria excessivamente quente; Saturno, excessivamente frio. Em tais condições, pergunta-se: seria possível a vida? É justamente aqui que sua estratégia argumentativa começa a se revelar.


2. Enfraquecer a objeção


O primeiro movimento de Kardec não consiste em provar que existe vida na Lua ou em qualquer outro planeta. Sua preocupação é anterior a isso: mostrar que as objeções apresentadas não são suficientes para justificar uma negativa absoluta.


Ao comentar a suposta ausência de atmosfera na Lua, por exemplo, ele não afirma que ela realmente exista. Limita-se a perguntar se seria racional concluir pela inexistência de algo apenas porque ainda não foi observado.

“Se a atmosfera da Lua não foi percebida, será racional inferir que não exista?”

Esse primeiro movimento revela uma característica marcante de seu método. Antes de construir uma hipótese, Kardec demonstra que a objeção apresentada não é conclusiva. Em vez de substituir uma certeza por outra, reabre racionalmente o campo da investigação.


3. Construir uma hipótese a partir da natureza


Uma vez estabelecido esse ponto, sua estratégia muda de direção. Em vez de permanecer no terreno da astronomia, Kardec volta-se para a própria natureza. A mudança não é casual. Se a vida, na Terra, manifesta capacidade de adaptação aos mais diversos ambientes, esse princípio torna-se o ponto de partida para refletir sobre a possibilidade de vida em outros mundos.


Os exemplos que apresenta mostram justamente isso: a vida adapta sua organização às condições do meio em que existe. A partir desse princípio, Kardec amplia seu raciocínio e admite como racionalmente possível a existência de organismos adaptados a ambientes completamente distintos dos nossos.
Kardec não afirma conhecer os habitantes de outros mundos. Limita-se a mostrar que essa hipótese é compatível com a razão.


Eliminada a falsa certeza, passa da crítica das objeções à construção positiva de sua hipótese.


4. Ampliar a perspectiva


Depois de recorrer à observação da natureza, Kardec amplia a escala de seu raciocínio. Em vez de permanecer analisando organismos e ambientes, passa a utilizar uma analogia capaz de deslocar a perspectiva do leitor.
A comparação entre a Terra e uma pequena ilha perdida no oceano constitui um dos recursos argumentativos mais elegantes do artigo. Kardec convida o leitor a imaginar os habitantes de uma ilha tão isolada que jamais tiveram contato com qualquer outro povo. Seria razoável que acreditassem ser os únicos seres humanos existentes? Evidentemente não. A analogia prepara uma conclusão simples e poderosa: a Terra pode ocupar, diante do Universo, posição semelhante à dessa pequena ilha diante do planeta.


A estratégia muda novamente. Até aqui, Kardec procurou mostrar que a hipótese da pluralidade dos mundos é compatível com a razão. Agora ele dá um passo além e convida o leitor a refletir sobre a ideia oposta: faria sentido acreditar que, entre milhões de mundos, apenas a Terra fosse habitada por seres inteligentes?


Essa mudança de perspectiva atinge seu ponto máximo quando Kardec retira a Terra e o próprio homem do centro da criação. Se nosso planeta não ocupa posição privilegiada nem pelo tamanho, nem pela localização, nem por sua constituição física, por que seria justamente ele o único destinado à vida inteligente?

A pergunta deixa de ser astronômica e passa a ser filosófica. O problema já não consiste em saber se existem habitantes em outros mundos, mas em compreender por que insistimos em acreditar que apenas nós os possuímos.


5. Razão antes da revelação


Somente depois de percorrer todo esse caminho racional Kardec introduz um novo elemento: as comunicações dos Espíritos.


Kardec não inicia dizendo que os Espíritos afirmam a pluralidade dos mundos e, por isso, devemos aceitá-la. Primeiro procura mostrar que essa hipótese é compatível com a razão. Apenas então escreve que esse raciocínio “acha-se confirmado pela revelação dos Espíritos”.


A revelação não substitui o argumento racional; aparece como sua confirmação. Kardec estabelece uma continuidade entre razão e revelação: o raciocínio prepara o terreno, e o ensino dos Espíritos amplia aquilo que já havia sido admitido como racionalmente possível.


6. Uma conclusão que vai além da astronomia


O encerramento do artigo confirma essa impressão. A pluralidade dos mundos deixa de ser apenas uma hipótese sobre a existência de vida fora da Terra e transforma-se numa reflexão sobre a própria condição humana. Kardec conclui mostrando que admitir a possibilidade de outros mundos habitados não diminui a humanidade. Pelo contrário. Amplia nossa compreensão da criação e combate a ideia de que ocupamos uma posição exclusiva diante de Deus.


À primeira vista, A Pluralidade dos Mundos parece um artigo sobre astronomia. Uma leitura mais atenta, porém, revela algo mais profundo. Kardec começa pelo problema, enfrenta as objeções, recorre à observação da natureza, amplia a discussão por meio de analogias, introduz as comunicações dos Espíritos apenas ao final e encerra extraindo uma consequência filosófica.


Mais do que defender a pluralidade dos mundos, Kardec demonstra que uma boa conclusão nasce de um bom raciocínio. Talvez seja essa a principal razão de seus textos continuarem tão atuais: antes de convencer, ensinam o leitor a pensar.

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Manifesto aos febianos: o alqueire foi removido https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/manifesto-aos-febianos-o-alqueire-foi-removido/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/manifesto-aos-febianos-o-alqueire-foi-removido/#comments Tue, 09 Jun 2026 14:04:35 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=286 Tendo buscado dialogar com S…, um conhecido integrante do Movimento Febiano e de certa forma ligado à FEB, a respeito de afirmações suas de que Roustaing teria sido um continuador do Espiritismo, obtivemos algumas respostas que claramente demonstram a posição inamovível deste e de outros indivíduos que se enviesaram pela doutrina misticista de Roustaing. Após […]

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Tendo buscado dialogar com S…, um conhecido integrante do Movimento Febiano e de certa forma ligado à FEB, a respeito de afirmações suas de que Roustaing teria sido um continuador do Espiritismo, obtivemos algumas respostas que claramente demonstram a posição inamovível deste e de outros indivíduos que se enviesaram pela doutrina misticista de Roustaing. Após alguns diálogos e percebendo a insistência em reafirmar a ideia de que a FEB cumpra com os princípios espíritas e de que o roustainguismo (ou rustenismo) se coadune com o Espiritismo, finalizamos o diálogo com o seguinte manifesto, que transcrevemos abaixo:

Bom dia, S…! Não vejo proveito em mantermos uma discussão sobre algo que você demonstra não desejar rever. Seu áudio revela desconhecimento sobre Kardec, sua obra e a imensa importância do Espiritismo. Kardec, João Batista reencarnado, cujo Espírito protetor era o próprio Jesus, conduziu o desenvolvimento do Espiritismo de maneira muito séria e completa, e os fundamentos da Doutrina Espírita são sólidos como a rocha mais sólida. Roustaing é a areia movediça.

Repito: a FEB traiu todos os fundamentos do Espiritismo e, modernos fariseus, entregaram pirita1 dizendo ser ouro, agindo exatamente como previsto no “Plano de Campanha” (RE67 – ago).

Como nem o roustanguismo, nem o domínio ismaelista sobreviveriam ao mais simples exame crítico, ela enterrou a metodologia espírita sob densas camadas de misticismo e aceitação cega; distorceu palavras de Kardec; publicou qualquer conteúdo sem exame; se auto-proclamou “guia dos rumos do Espiritismo no Brasil”, contrariando as características científicas do Espiritismo; ainda contrariando seu aspecto puramente científico, criou uma religião sincrética, cristã, interpondo um obstáculo à sua outrora tão fácil aceitação por gente de todo tipo de religião e, enfim, fez com que o Espiritismo fosse reconhecido como algo ridículo pelo público geral, provocando abandono e esvaziamento.

Chega! Não mais! Esse tempo de domínio do dogma acabou! Foi-se o tempo em que a verdade ficava escondida! A cada dia mais, cresce o número de pessoas que, iluminando-se pela sede de conhecimento, levantam o alqueire que tapava a chama acendida por Jesus e ampliada pelo verdadeiro Espiritismo! Chega de distorções, chega de dogmas, chega de absurdos! Basta! Como outrora Jesus acusava a hipocrisia farisaica, hoje acusamos a hipocrisia e o cinismo dessa religião febiana que, dando azo aos inimigos do progresso moral, tentou apagar o Espiritismo sob sofismas e falácias!

Acabou. Novamente os grupos se formam por toda parte e, a despeito das descaradas e ridículas manipulações contidas no ESDE, ancoradas no absurdo Pacto Áureo, bem como em obras como “O Consolador” e “Mediunidade: Estudo e Prática”, que tentaram distorcer a verdade para abolir as evocações, novamente evocamos e dialogamos, e os primeiros agrupamentos de representantes já se formam, para retomarmos o método de Kardec.

A verdade pode ser abafada por algum tempo, mas não apagada. De Jesus a Kardec, foram 1857 anos. De Kardec a nós, menos de 160. Desta vez a verdade veio para ficar.

Repito o que disse anteriormente: sejam totalmente livres para acreditar no que queiram. A isso o Espiritismo não se impõe. Porém, façam isso sempre com a lisura moral necessária, sem tentar colocar, no mesmo balaio, ciência e dogmas, Espiritismo e Roustainguismo, para que, amanhã, vossa própria consciência não seja o carrasco implacável.

Grato pela atenção. Desejo tudo de bom para você(s).

  1. Mineral conhecido como “ouro dos tolos”, de aparência dourada e brilhante, semelhante ao ouro.

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Os Pilares do Espiritismo – Reinterpretar sem Descaracterizar https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/os-pilares-do-espiritismo-reinterpretar-sem-descaracterizar/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/os-pilares-do-espiritismo-reinterpretar-sem-descaracterizar/#respond Tue, 02 Jun 2026 21:08:26 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=282 Toda doutrina viva está sujeita ao tempo. Diferentemente de um texto morto ou de um dogma fechado, uma doutrina que pretende acompanhar a evolução da humanidade precisa ser revisitada, relida e reinterpretada. O Espiritismo, por sua própria natureza racional e progressista, sempre reconheceu essa necessidade. Kardec, em diversas passagens, afirmou que a doutrina não foi […]

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Toda doutrina viva está sujeita ao tempo. Diferentemente de um texto morto ou de um dogma fechado, uma doutrina que pretende acompanhar a evolução da humanidade precisa ser revisitada, relida e reinterpretada. O Espiritismo, por sua própria natureza racional e progressista, sempre reconheceu essa necessidade. Kardec, em diversas passagens, afirmou que a doutrina não foi revelada pronta e acabada, mas construída com a contribuição dos Espíritos e filtrada pela razão humana e que novos conhecimentos poderiam complementá-la.

No entanto, há um equívoco comum quando se fala em reinterpretação. Muitos entendem que qualquer releitura é legítima, como se todos os elementos da doutrina tivessem o mesmo peso e pudessem ser livremente adaptados ao gosto pessoal ou ao espírito da época. Esse pensamento ignora uma distinção fundamental: entre o que é essencial e o que é periférico.

A questão correta, portanto, não é “pode reinterpretar?”, porque sim, pode, e deve. A questão correta é: o que pode ser reinterpretado sem que a doutrina deixe de ser ela mesma?

Qualquer nova interpretação ou complemento só passa a fazer parte do corpo da doutrina se for submetido ao cadinho da razão e ao controle universal, garantindo que não seja apenas uma ideia “excêntrica” ou “sistêmica” de um grupo isolado.

Porque, quando a reinterpretação ultrapassa o limite, o resultado não é uma atualização legítima, mas uma ruptura disfarçada. A doutrina continua usando o mesmo nome, citando as mesmas fontes, mas seus alicerces foram trocados. Já não é mais Espiritismo; é outra coisa que se apresenta como tal.

O fenômeno não é novo. Na história das religiões e das filosofias, é comum ver correntes que se reivindicam herdeiras de uma tradição, mas que na prática negam seus princípios mais fundamentais. Isso acontece de forma lenta, gradual, tornando difícil perceber onde exatamente a linha foi cruzada. Um deslocamento pequeno aqui, uma ênfase diferente ali, até que o conjunto já não se reconhece mais.

No Espiritismo, isso ocorre de várias formas: quando se nega a individualidade do Espírito após a morte, transformando-o em mera “consciência cósmica impessoal”; quando a reencarnação perde seu vínculo com a causas e efeitos e se torna um ciclo automático sem responsabilidade moral; quando a mediunidade é reduzida a um fenômeno psicológico ou subjetivo, sem realidade externa; O Espiritismo se descaracteriza quando se abdica da análise rigorosa das comunicações mediúnicas, sejam em cartas ou livros. É um dever do espírita submeter cada mensagem ao ‘cadinho da razão e da lógica’, pois o erro fundamental de muitos é aceitar ensinos baseando-se apenas na ‘beleza da forma’ ou no ‘prestígio do nome’ que assina a mensagem. A verdadeira autoridade de uma comunicação não reside na assinatura ilustre, que pode ser apócrifa, mas na qualidade intrínseca do pensamento e em sua concordância com o Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE). Sem esses filtros críticos, a doutrina deixa de ser uma ciência para se tornar joguete de sistemas pessoais e mistificações.

Cada uma dessas mudanças, sozinha, pode parecer apenas uma “nova interpretação”. Mas o efeito acumulado é a descaracterização completa. É o fenômeno que se observa com frequência na atualidade.

Toda doutrina filosófico-científica, para ser coerente e reconhecível, apoia-se em certos elementos estruturais. Entre eles, destacam-se:

  • Princípios fundacionais;
  • Método de validação;
  • Visão de ser humano;
  • Visão moral;
  • Metafísica;
  • Finalidade da existência.

Quando um desses elementos muda radicalmente, a doutrina já não é a mesma. Quando vários mudam, a identidade se perde por completo.

No caso específico do Espiritismo codificado por Allan Kardec, podemos identificar os pilares centrais que definem sua essência. São eles:

  1. Existência de Deus: Princípio inteligente e causa primeira de todas as coisas.
  2. Imortalidade da alma: O ser pensante sobrevive à morte do corpo.
  3. Comunicabilidade dos Espíritos: Relação constante entre encarnados e desencarnados.
  4. Evolução moral: O Espírito progride ao longo das existências, tornando-se melhor.
  5. Livre-arbítrio: O Espírito escolhe seus caminhos e responde por eles.
  6. Responsabilidade moral: Toda ação tem consequência natural segundo a justiça divina; em suma, a Autonomia.
  7. Racionalidade da doutrina: A fé espírita é raciocinada, podendo encarar a razão em todas as épocas.
  8. Possibilidade de progresso espiritual: Nenhum Espírito está condenado eternamente; todos podem evoluir.

Reinterpretar não é apenas legítimo; é necessário para que o Espiritismo continue sendo uma doutrina viva. A linguagem pode ser atualizada, aplicações históricas podem ser repensadas, ênfases podem mudar. Mas os pilares acima não são negociáveis. Eles formam a identidade profunda do Espiritismo. esse trabalho de reinterpretação deve sempre ser submetido ao filtro da lógica e ao controle universal.

Sem Deus, não há causa. Sem imortalidade da alma, não há Espiritismo. Sem comunicabilidade dos Espíritos, sem evolução moral, sem livre-arbítrio, sem responsabilidade moral, sem racionalidade, sem possibilidade de progresso, não há Espiritismo. Em cada um desses casos, o nome pode até ser mantido, mas a doutrina já é outra.

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O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/o-desvio-da-federacao-espirita-brasileira-como-o-roustainguismo-afastou-do-espiritismo-o-movimento-espirita/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/o-desvio-da-federacao-espirita-brasileira-como-o-roustainguismo-afastou-do-espiritismo-o-movimento-espirita/#respond Sun, 24 May 2026 22:04:42 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=213 O que se conhece de Espiritismo no Brasil passa, necessariamente, pela imagem de um Movimento Espírita formado majoritariamente pela influência da Federação Espírita Brasileira. Contudo, quanto mais estudamos, mas estranhamos a distância inquestionável desse Movimento com o Espiritismo original. Começamos a nos perguntar, então: “o que aconteceu?”. Informações recentemente descobertas nos colocaram a par daquilo […]

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O que se conhece de Espiritismo no Brasil passa, necessariamente, pela imagem de um Movimento Espírita formado majoritariamente pela influência da Federação Espírita Brasileira. Contudo, quanto mais estudamos, mas estranhamos a distância inquestionável desse Movimento com o Espiritismo original. Começamos a nos perguntar, então: “o que aconteceu?”. Informações recentemente descobertas nos colocaram a par daquilo que, para alguns, já é muito claro, há muito tempo.

Tudo começou com a leitura dos livros Autonomia – A História Jamais Contada Do Espiritismo, de Paulo Henrique de Figueiredo e Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec, de Wilson Garcia. O fato inconteste, finalmente vem dar luz às nossas dúvidas: a Federação Espírita Brasileira é uma instituição de tradição e raízes roustainguistas, desde seus primeiros passos!

Roustaing

Roustaing — Jean-Baptiste Roustaing — para quem não sabe, foi um poderoso advogado à época de Kardec. Resumidamente, passou a receber comunicações espíritas através de uma médium — sim, apenas uma médium. Nessas comunicações, “os Espíritos” (provavelmente era apenas um) apresentavam-se como sendo os quatro evangelistas e diziam que ele, Roustaing, era o Revelador das Revelações. Não é necessário dizer que isso era uma flagrante mistificação, é? Diremos: isso era uma flagrante mistificação, facilmente reconhecida por alguém que conhecesse profundamente a ciência espírita. Esse alguém, Kardec, critica a obra transmitida por esses Espíritos, “Os Evangelhos”, e, assim, tocando no orgulho e na vaidade gritantes daquele senhor, cria um novo inimigo.

Dentre os dogmas admitidos por esse senhor, estava a ideia de que um Espírito que erra muito é enviado para um planeta inferior, onde encarnaria como uma lesma (“criptógamos carnudos”). Havia também o dogma da queda pelo pecado, onde o ser humano somente teria que encarnar após cometer um erro e, assim, adquirir uma culpa que o projetaria a um castigo, pela encarnação — a mesma ideia inserida na adulteração de O Céu e o Inferno — bem como o dogma de que Jesus era apenas um agênere, ou seja, jamais encarnou entre nós.

Ideias místicas, por alguma razão que não compreendemos, agradam a muitos, por mais complicadas e sem sentido que possam nos parecer, frente à inquebrantável cristalinidade do Espiritismo. Assim, essas ideias encontraram coro ainda em território Francês, inclusive por Leymarrie, responsável maior pela adulteração dos propósitos da Sociedade Anônima e da Revista Espírita, após a morte de Kardec. Logo, essas ideias foram importadas para solo brasileiro, onde se fundou o Grupo Sayão1, ou Grupo dos Humildes, ou Grupo Ismael. Nesse grupo, aliás, comunicava-se o Espírito do “Anjo” Ismael, reproduzindo diversos absurdos misticistas, o mesmo “Anjo” Ismael que aparece em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, uma obra produzida por um Espírito mistificador, repleta de absurdos misticistas e mesmo de mentiras. Desse grupo fazia parte, também, o tão conhecido Dr. Bezerra de Menezes. É.

O “anjo” Ismael

Esse tão aclamado “anjo” Ismael é tão cínico, tão hipócrita, que, demonstrando sua imperfeição, chega ao nível de dizer que Kardec teria tido uma opinião isolada a respeito da encarnação de Jesus:

Se a opinião isolada do vosso bom mestre Allan Kardec pôde, de alguma sorte, influir no entendimento de alguns, fazendo-lhes crer que o Redentor do mundo viera revestir-se da matéria grosseira dos corpos comuns, para dar o exemplo das maiores virtudes, encaminhando a humanidade inteira para a terra da promissão, hoje, que todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente, que o seu corpo apenas se constituíra de fluidos concentrados no seio da sempre Virgem Maria, não há mais razão de ser para duas opiniões a tal respeito.

As virtudes do céu: a admirável coleção de mensagens recebidas nos primórdios do Grupo Ismael e constantes da segunda edição de Elucidações Evangélicas, de Antônio Luiz Sayão / organizador: Marco Aurélio L. de Assis. — Rio de Janeiro: CRBBM, 2012.

É interessante ver como, sendo a dele uma opinião isolada, ele busca inverter o jogo, ao mentir dizendo que, hoje, “todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente”. É o velho dogma de Roustaing, de que o corpo é imundo, que a encarnação é um castigo e que, portanto, Jesus não poderia ter encarnado. Importa dizer que essa concepção da encarnação como castigo se instalou no Movimento Febiano-Espírita em grande parte, pois repete-se por todo canto a ideia de que o indivíduo que passa por uma dificuldade qualquer, mesmo quando imposta por outrém (como no caso de um crime) ou quando por conta de uma doença, apenas estaria “resgatando débitos de vidas passadas”.

FEB, roustainguista

Antes do Grupo Sayão, fundou-se o Grupo Confúcio. A esse Grupo pertenceram, entre outros, o Dr. Siqueira Dias, Dr. Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Dr. Antonio da Silva Neto, Dr. Joaquim Carlos Travassos, Prof. Casimir Lieutaud. Muitos desses vocês verão no material disponibilizado, declarando sua “fé” em Roustaing e nos seus quatro Evangelhos. A esse grupo seguiu a Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade”, fundada em março de 1876. “Deus, Cristo e Caridade” é, até hoje, o lema da FEB.

“Acedendo Bezerra de Menezes em aceitar a Presidência da Federação, em 1895, o ‘Grupo Ismael’ acompanhou o apóstolo, apoiou-o na direção da Casa e integrou-se a ela”, conforme se lê no portal da própria FEB (A FEB – Origens), acessado em 23/06/2024. Assim, passou a dominar a FEB um grupo roustainguista, que se estabeleceu e criou raízes que atravessariam o século XX, adentrariam o século XXI e, nos primeiros anos desse, em 2018, embora deixassem o estatuto febiano, que anteriormente obrigavam o estudo e a disseminação dessas obras, continuaram em suas entranhas, posto até hoje essa instituição não ter assumido publicamente seus desvios e se comprometido à reparação.

O coordenador da Assessoria jurídica do CFN, Francisco Ferraz Batista, apresentou o resultado dos processos havidos na 29o Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, sobre a retirada, do Estatuto da FEB, da parte do item referente à divulgação e estudo das obras de J.B Roustaing. Os resultados foram favoráveis à FEB, para a retirada do referido trecho do item do seu Estatuto, o que deverá ocorrer, formalmente, em reunião da Assembleia Geral.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conselho Federativo Nacional. Ata da Reunião Ordinária do CFN – 2018. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2019/01/CFN_FEB_Ata_da_Reuniao_Ordinaria_de_2018.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

Julio Nogueira, no artigo “Breve exame dos estatutos da FEB2”, explica bem sobre o estatuto febiano e suas relações com Roustaing.

A FEB deixou o roustainguismo?

A retirada desse trecho do estatuto da FEB obviamente não retirou Roustaing de suas entranhas, posto que continua constando a obrigatoriedade do estudo de “Brasil, Coração do Mundo”, obra que continua sustentando a mentira sobre Roustaing, destacada por nós em negrito:

“Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico”.

CAMPOS, Humberto de. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB – Federação Espírita Brasileira, 1938. Disponível em: https://files.comunidades.net/portaldoespirito/Brasil_Coracao_do_Mundo_Patria_do_Evangelho.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

É assim que, “para ser espírita”, na generalidade dos centros espíritas em que se pise, te direcionarão à catequização febiana, estudando o “Espiritismo” não nas obras de Kardec, mas nas apostilas da Federação Espírita Brasileira, onde, trazendo como obra básica “Brasil, Coração do Mundo”, valida-se ao mesmo tempo a mentira sobre a figura de Roustaing e o misticismo do “anjo” Ismael. Valida-se, por conseguinte, toda a tradição febiana e o descarte de toda a metodologia e toda a organização necessárias para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, substituindo-se toda a ciência espírita pela crença cega nos Espíritos e nas personalidades chanceladas pela FEB…

Cita Sérgio Aleixo:

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Máter do rustenismo no mundo, que registra:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.

ALEIXO, Sérgio. O roustainguismo nas obras de Chico Xavier. Disponível em: https://memoriaspirito.wordpress.com/roustainguismo-herculano-pires/roustainguismo-chico-xavier-sergio-aleixo/. Acesso em: 24 jun. 2024.

Poderíamos estender este artigo longamente, demonstrando que os presidentes dessa instituição sempre foram roustainguistas; que a FEB, várias vezes, conforme se lê em O Reformador, colocou Roustaing acima de Kardec; que a FEB, no início do século XX, publicou a obra Os Evangelhos, de Roustaing, trazendo, no prefácio, uma verdadeira afronta a Kardec, ao Espiritismo e aos espíritas confessos. Deixaremos essa constatação a cargo do prezado leitor, que encontrará no material aqui disponibilizado, obtido em grande parte do próprio site da FEB (no Google, pesquise assim: “site:febnet.org.br Roustaing”), a prova do que ora dizemos. Limitamo-nos a destacar a seguinte imagem, obtida de um documento oriundo do site da própria FEB:

https://www.febnet.org.br/ba/file/Horarios/3_feira_O_Evangelho.pdf

Importante também destacar que, no domínio da FEB, consta um glossário, “Espiritismo de A a Z”, constando a explicação de termos e vocábulos — à luz do Espiritismo, óbvio? Não. À sombra de Roustaing:

http://www.sistemas.febnet.org.br/site/az/AZ-Vocabulos-e-Conceitos.php?CodVoc=380&L=3&busca=&CodLivro=

Atualização de maio de 2026

Não, a FEB não deixou o Roustainguismo para trás. Como vocês podem ver na imagem abaixo, obtida do instagram oficial da FEB, temos, no dia 19/05, a realização de duas palestras (até o momento não pulicadas) baseadas em QE, que nada mais é que Os Quatro Evangelhos de Roustaing!

Movimento Espírita afastado do Espiritismo

Ocuparemo-nos, porém, de avaliar os efeitos de um Movimento Espírita formado pela FEB:

Espíritas que desconhecem o Espiritismo; espíritas que têm medo dos Espíritos; espíritas que não evocam os Espíritos, questionando as comunicações evidentemente enganosas; espíritas que creem cegamente nas comunicações dos Espíritos, aceitando tudo à guisa de “complemento doutrinário”; espíritas que não praticam a mediunidade no lar, crendo que isso atrairia obsessores e que – um absurdo – somente no centro espírita teriam proteção dos bons Espíritos, que se eles não fossem aos lares dos bem intencionados; espíritas, enfim, que reproduzem as diversas falsas ideias, colhidas das comunicações aceitas cegamente e das opiniões de médiuns idolatrados, provocando verdadeiro vexame ao Espiritismo e dando munição aos seus críticos.

Devemos citar que, dentre esses médiuns idolatrados, figura Divaldo Franco, que, nas palavras de Augusto dos Anjos:

Divaldo Pereira Franco, o primeiro vintém, por mais de uma vez fez a mim, pessoalmente, a afirmativa de que não há como explicar os Evangelhos senão à luz da “Revelação da Revelação”. Seria uma posição reservada, apenas para meu conhecimento particular? Claro que não. Antes que tudo porque os homens de bem não têm por vezo, sob nenhum pretexto, formar posições dúbias, uma pública e outra para os amigos particulares. Esse comportamento anfibológico não cabe nos espíritos de boa moral. Depois, porque a mesma afirmativa o estimado médium baiano já a fez da tribuna, a plenos pulmões, do alto da autoridade e da retumbância que lhe reconhecemos e que tanto têm servido à iluminação espiritual de nós todos, espíritas do Brasil e de fora do Brasil. Para prová-lo, transcrevo a seguir, «verbo ad verbum», as mais recentes palavras de Divaldo Pereira Franco pro- nunciadas do alto da tribuna do Grupo Espírita Fabiano (um dos mais sérios e bem orientados grupos que existem na Guanabara), na noite do dia 6 de Outubro de 1969, estando como de costume superlotado o auditório. Eis o trecho da memorável alocução, gravada em fita magnética, com o conhecimento do orador:

“Durante muitos anos eu não entendia. Eu fui a Roustaing, que é a minha fonte inexaurível de estudo evangélico! Há quase vinte anos que eu leio o benfeitor João Batista Roustaing, meditando na sua palavrazinha, nas belas informações da Sra. Collignon, provindas da Espiritualidade. Mas é de uma interpretação maravilhosa!”

ANJOS, Luciano dos. Um gosto e 4 vinténs. Reformador, Rio de Janeiro, p. 9-11, jan. 1970. Extraído do livro A Posição Zero.

Infelizmente, esse não foi o único caso de um médium idolatrado ou de suas psicografias defendendo a figura de Roustaing e suas ideias, como poderão constatar neste artigo. Lembramos que, aqui, estamos discutindo ideias, e não julgando pessoas.

É evidente que, embora nem todo o Movimento Espírita seja filiado à FEB, os tentáculos do roustainguismo e do misticismo envolveram todo o Movimento Espírita Brasileiro. Infelizmente, esses tentáculos também atravessaram os oceanos…

Plano de Campanha

Vemos, enfim, cumprida a “profecia” realizada em 1867 e apresentada na Revista Espírita de agosto do mesmo ano, artigo “Plano de Campanha”:

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

A tão desejada unidade do Movimento Espírita não se dará pela afiliação a uma instituição que mais se assemelha ao clero católico. Não. Isso, aliás, contraria os planos para o Espiritismo, idealizados por Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1868 — Constituição Transitória do Espiritismo. Essa unidade somente se dará entre aqueles que, de boa vontade, mergulharem no estudo da ciência espírita, voltando a, depois disso, praticarem a mediunidade no lar, em pequenos grupos, harmoniosos, coesos, realizando a análise das comunicações e das evocações. Esses grupos, espalhados por toda parte, colaborando entre si, sem nenhuma submissão ao controle de uma instituição, mas, sim, ao controle da generalidade dos ensinamentos dos Espíritos, submetidos ao crivo da razão, poderão, então, voltar a trabalhar no desenvolvimento doutrinário. Não antes, não sem isso.

Por isso, destacamos a necessidade da formação de grupos de estudos – no lar, pela internet, no centro espírita – para o estudo dedicado das obras de Kardec não adulteradas e das obras de contextualização. Deixamos, aqui, nossa modesta colaboração nesse sentido: Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos.

No dia em que a Federação Espírita Brasileira assumir seu desvio, comprometendo-se à reparação e subtraindo-se ao propósito de determinar os rumos do Espiritismo no Brasil, voltaremos a valorizá-la. Não antes, não sem isso.

  1. Antônio Luis Sayão, esse mesmo, cultuado pela FEB
  2. NOGUEIRA, Julio. Breve exame dos estatutos da FEB. Disponível em: http://www.telma.org.br/artigos/breve-exame-dos-estatutos-da-federacao-espirita-brasileira-1883-1924-mudanca-de-orientacao-inicial-inclusao-de-roustaing-so-realizada-na-reforma-estatutaria-de-1917-criacao-de-sistema-de-poder-exclusivista-que-nao-nasce-do-consenso-ent. Acesso em: 24 jun. 2024.

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A União Espírita Brasileira, nascendo de um esforço colaborativo livre e independente de indivíduos interessados na proteção e no resgate do Espiritismo verdadeiro, conforme organizado nas 23 obras de Allan Kardec, estabelece-se como uma força de oposição a todas as vexatórias distorções impostas à Doutrina Espírita, desde a França, após a morte de Kardec, mas especialmente no Brasil, desde a tomada da Federação Espírita Brasileira por seguidores da doutrina de Jean Baptiste Roustaing.

Por conta dessa invasão de pessoas guiadas por princípios fundamentalmente contrários ao Espiritismo, quais sejam a não encarnação de Jesus e sistemas do dogma da encarnação como castigo e da retrogradação da alma, esse grupo fez da FEB a nova “Casa de Ismael”, título e história orgulhosamente apresentados pela FEB, ainda hoje (sic!).

Ismael, Espírito imperfeito que, ao longo de mais de 140 anos, tem defendido a mesma doutrina de Roustaing e, tendo alcançado a fascinação desse grupo, desde 1895 comanda os princípios da FEB, conseguindo criar a mais profunda divisão possível no Movimento Espírita Brasileiro: de um lado, estudiosos e defensores do Espiritismo verdadeiro; do outro, pessoas que levianamente renegaram o Espiritismo em nome de uma fé cega, abolindo o exame crítico das comunicações espíritas e provocando todo tipo de distorção vexaminosa ao Espiritismo, apresentando ao pública uma face ilógica, irracional e religiosa daquilo que deveria ser simplesmente uma ciência filosófica de aspecto moral.

Federação Espírita Brasileira, que de “espírita” só tem o nome, já que nunca agiu em favor de sustentar os pilares centrais da doutrina espírita, quais sejam a fé raciocinada, o exame crítico a toda e qualquer comunicação espírita, sem exceções, o zelo com as publicações feitas em nome do Espiritismo e a continuidade dos princípios exaustivamente defendidos por Allan Kardec, até o final de seus dias.

Os princípios que nos unem, portanto, são:

A Revista Espírita Semear, do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec, será divulgada e utilizada como veículo de disseminação do conhecimento da ciência espírita e do combate às distorções.

A UEB, seguindo os princípios defendidos por Kardec, não visa e nem pode visar ser uma instituição acima do Movimento Espírita, como a FEB fez, autointitulando-se “Casa-Mater do Espiritismo no Brasil”. O que deve ser Mater – mãe – do Movimento Espírita é a unidade doutrinária, baseando-se na sólida rocha que é a ciência espírita. Não buscamos, portanto, uma unificação, como essa perseguida pela FEB para colocar todo o movimento espírita aos pés de sua doutrina roustanguista/ismaelista antiespírita. Os agrupamentos, sociedades e instituições devem estar abaixo dos princípios da Doutrina Espírita, servindo apenas como foco de união e propagação, mas nunca, jamais, ditando rumos conforme os gostos ou ideias desse ou daquele indivíduo, grupo, instituição ou sistema, conforme bem demonstrado nos artigos “Organização do Espiritismo”, na Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1861 e “Constituição transitória do Espiritismo”, na Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1868.

Importa destacar que esta livre reunião é apolítica, sendo, inclusive, crítica à frequente tentativa de moldar o Espiritismo conforme as vertentes políticas de direita e de esquerda.

Da mesma forma que a nossa iniciativa é apolítica, é também não religiosa. Tal como sempre recomendado por Kardec, não adotamos sinais, cultos, rituais e nem mesmo o Pai Nosso em nossas reuniões, para que não exista conflito com a religião que cada um possa ter.

As indicações de obras extremamente importantes para o necessário conhecimento de todos esses fatos, dentre elas “O Legado de Allan Kardec“, de Simoni Privato, “Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo“, de Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio, e “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo“, de Paulo Henrique de Figueiredo, encontram-se disponíveis no site do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec.

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Ata da Primeira Reunião da União Espírita Brasileira – UEB  https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/ata-da-primeira-reuniao-da-uniao-espirita-brasileira-ueb/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/ata-da-primeira-reuniao-da-uniao-espirita-brasileira-ueb/#comments Sat, 23 May 2026 20:23:15 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=191 Local: Ambiente Virtual Data: 23 de maio de 2026 Horário: 10h00 às 10h53 (horário de Brasília) Coordenação da Reunião: Paulo Redação da Ata: Ariane  1. Abertura (início às 10h00 – horário de Brasília)  2. Participantes e Apresentações Cerca de 30 pessoas participaram desta primeira reunião, oriundas  várias partes do Brasil e do mundo.  Os participantes […]

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Local: Ambiente Virtual

Data: 23 de maio de 2026

Horário: 10h00 às 10h53 (horário de Brasília)

Coordenação da Reunião: Paulo

Redação da Ata: Ariane 

1. Abertura (início às 10h00 – horário de Brasília) 

  • Iniciativa e Nascimento da União: Paulo apresentou a iniciativa da União, baseada no conteúdo de seu vídeo anterior nas redes sociais. Ele contou sua história no Espiritismo. 

2. Participantes e Apresentações

Cerca de 30 pessoas participaram desta primeira reunião, oriundas  várias partes do Brasil e do mundo. 

Os participantes se apresentaram (alguns participantes não tiveram seus nomes registrados):

  • Marcos: De Salvador, é espírita há bastante tempo.
  • Olney: Brasileiro hoje em Portugal, contou sua história pessoal no Espiritismo. Destacou a necessidade de retomar Kardec e a importância de unir os espíritas. Comentou também sobre a importância da análise das comunicações mediúnicas para o entendimento doutrinário.
  • Casal Maria Clara e Antonio Pereira Neto – Belém-PA: Contaram sua história no Espiritismo. Comentaram sobre a análise de comunicações mediúnicas.
  • Henrique Miranda: Radialista do RJ, ligado à FEB, e comentou sobre “faculdade de Espiritismo” (nome não confirmado).
  • Ariane: Apresentou-se e comentou sobre a rede de restabelecimento.
  • Rodrigo: Apresentou-se.
  • Nelson: Apresentou-se.
  • Eudes de Avelar: Repudiou o livro Coração do Mundo Pátria do Evangelho e mencionou seu trabalho com moradores de rua.
  • Elvira: Manifestou-se muito interessada, com muitas dúvidas.
  • Jorge Amaranto Juchem Jr, Barão/RS

3. Discussões e Contribuições

  • Histórico e Inspiração: Paulo contou a história da criação da União Espírita Francesa, que teve a participação de Berthe Fropo (amiga da família), Amelie Boudet (esposa de Kardec), Delanne pai e filho, Leon Denis e outros. Ele informou que a UEP criou a revista “Le Spiritisme”. Paulo disse que, por inspiração dessa história, surgiu a ideia de criar a União Espírita Brasileira (UEB). A inspiração surgiu ao mesmo tempo com outra integrante de nosso grupo. A ideia passou então a ser desenvolvida pelo grupo, culminando na criação da União Espírita Brasileira e do portal uniaoespiritabrasileira.com.br.
  • Declaração da União: foi registrado que pautaremos os esforços sempre nos princípios registrados na Declaração da UEB.
  • Revista ou Jornal Periódico da UEB: Foi discutida a criação de uma revista periódica da UEB. Olney e outros participantes debateram como estabelecer essa revista. Houve a discussão da possibilidade de utilização da Revista Semear já estabelecida para incorporar as ideias da UEB.  Foi sugerida a criação de um novo periódico exclusivo  da UEB com o nome “O Espiritismo”. Paulo informou que colocará o site https://www.geolegadodeallankardec.com.br/ e toda a sua estrutura  à disposição para a criação e divulgação do jornal O Espiritismo
  • Posicionamento da UEB: Marcos enfatizou que a União não pode ter a intenção de gerar uma nova FEB ou se colocar acima de qualquer outro grupo ou pessoa, destacando, ainda, que não é um grupo religioso.
  • Tecnologia e Disseminação: Pablo Lucas sugeriu focar em tecnologia e disseminação, propondo “tirar a raiz do problema” e agir gradualmente (“de grão em grão a galinha enche o papo”).

4. Encaminhamentos e Propostas

  • Canais nas Redes Sociais: Foi solicitado aos participantes que disponibilizassem seus canais nas redes sociais no grupo de Whatsapp.
  • Resolução de Dúvidas: Pablo Lucas sugeriu a realização de lives dos participantes engajados para tirar dúvidas.
  • Disseminação: Pablo Lucas sugeriu a criação de um perfil de UEB nas redes sociais. Foi informado que a UEB já possui perfis no TikTok e  Instagram, alem do site uniaoespiritabrasileira.com.br.

5. Encerramento ( às 10h53, horário de Brasília)

  • Foi manifestada a intenção de elaborar esta ata. Foi registrado que a reunião não foi gravada por motivos legais.
  • Foi encaminhada a necessidade de uma nova reunião em data oportuna.
  • A reunião foi encerrada com saudações finais de todos os participantes.

Subscrevem publicamente a esta ata, pelo que ficamos bastante felizes:

Adinei José Faria – Cidade de Aracruz-ES

Adyr Rodrigues Nascimento – Belo Horizonte, MG

Anderson de Sousa Tavares/Campina Grande PB

Andrea Freitas Jardim – Imbé RS

Angelita – Barão/Rs

Antonio Marcos Brito de Cerqueira – Salvador

Antonio Pereira Neto e Maria Clara – Belém-PA

Ariane Netto Daud – São Paulo – SP

Ceres Postali Marcon – Antonio Prado – RS

Daniela Bissolotti – Barão/RS

Edvalson Carvalho Cavalcanti- São Luís/MA

Elvira Carvalho Curi Ramos – Salvador – BA

Gilberto Alfredo de Freitas da Silveira, Viamão, RS

Irléia e estou em Natal (Rio Grande do Norte).

Isabella rodrigues, jacareí SP

Jeferson Cândido do Nascimento – João Pessoa / Paraíba

Jessica Dubal – Barão/RS

Johano Rolim – Sapucaia RJ

Jonas Pires Portela

Jonas Pires Portela / Barão,RS

Jorge Amaranto Juchem Junior Barão/RS

Olney Leite Fontes, Braga – Porugal

Paulo Degering Rosa Junior – São Paulo – SP

Rodrigo Ribeiro de Souza / Curitiba – PR

Tula Di Vito Franco – Uberaba/MG

Víctor Dian Machado Martins dos Santos. Davinópolis/Goiás.

Vinicius Kmez – São Bernardo do Campo/SP

Walmir Araújo – Buíque-PE

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Esperar que a FEB deixe o roustainguismo é esperar milagre https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/esperar-que-a-feb-deixe-o-roustainguismo-e-esperar-milagre/ https://uniaoespiritabrasileira.com.br/artigos/esperar-que-a-feb-deixe-o-roustainguismo-e-esperar-milagre/#respond Fri, 22 May 2026 15:34:34 +0000 https://uniaoespiritabrasileira.com.br/?p=172 Temos firmemente demonstrado que a Federação “Espírita” Brasileira se afastou decididamente do Espiritismo desde que, em 1895, foi tomada pelo grupo roustainguista Sayão. Sobram fatos que demonstram todo esse processo, como aqueles destacados no artigo “O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita“, do Grupo de Estudos O […]

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Temos firmemente demonstrado que a Federação “Espírita” Brasileira se afastou decididamente do Espiritismo desde que, em 1895, foi tomada pelo grupo roustainguista Sayão. Sobram fatos que demonstram todo esse processo, como aqueles destacados no artigo “O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita“, do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec. O que não esperávamos é que, em pleno ano de 2026, quase oito anos após remover o estudo da obra de Roustaing de seu estatuto, víssemos a FEB aberta e oficialmente realizando estudos sobre essa obra, o que é facilmente constatado pelo seu cronograma de palestras divulgado no Facebook e no Instagram, no dia 15 de maio de 2026:

Prestem especial atenção ao conteúdo do dia 19/05:

QE significa “Os Quatro Evangelhos”, de Roustaing! Notem também o texto: “As palestras públicas da FEB convidam à reflexão e ao estudo do Evangelho e das obras de Allan Kardec”. Ou seja: estudos do Evangelho (esse termo sempre foi usado para se referir ao Evangelho de Roustaing) “E” das obras de Kardec.

Obviamente que, passada essa data, eles não publicaram o conteúdo dessas palestras em suas redes públicas, demonstrando que Roustaing continua por debaixo dos panos, guiando os passos da FEB que, ainda hoje, divulga obras distorcendo a obra de Kardec, como esse mesmo grupo já demonstrou em um artigo a respeito das “apostilas” “Mediunidade: Estudo e Prática“, editada e publicada pela FEB.

É muito importante que todos fiquem muito bem cientes dessas ações febianas, para que não se enganem mais sobre a sua base roustainguista/ismaelista que, apesar de ser de areia, está muito bem estabelecida para essa instituição.

Leia o artigo “O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita“.

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