Introdução

Alguns textos de Allan Kardec sobre as chamadas raças humanas produzem evidente desconforto ao leitor contemporâneo. Em determinadas passagens, Kardec utiliza expressões como “raças mais inteligentes”, “raça inferior” e chega a sustentar que diferentes organizações corporais ofereceriam diferentes possibilidades de manifestação intelectual.

Lidas exclusivamente a partir das categorias científicas e morais atuais, essas formulações podem conduzir rapidamente à conclusão de que Kardec teria elaborado uma doutrina racial destinada a estabelecer a inferioridade dos negros.

Essa leitura, entretanto, corre o risco de cometer um anacronismo.

Não porque as passagens devam ser ocultadas, relativizadas ou declaradas corretas. Elas precisam ser examinadas integralmente. O problema está em interpretar textos de meados do século XIX como se seus conceitos, classificações e pressupostos científicos possuíssem exatamente o mesmo significado que possuem no século XXI.

Uma análise histórica exige inicialmente reconstruir o horizonte intelectual dentro do qual Kardec formulava seus argumentos.

Na antropologia física de seu período, “raça” constituía uma categoria científica amplamente utilizada. Pesquisadores procuravam classificar populações humanas segundo características anatômicas e fisiológicas e discutiam questões hoje abandonadas ou profundamente reformuladas, como a existência de diferentes capacidades naturais de desenvolvimento entre as chamadas raças.

A própria expressão “perfectibilidade das raças”, empregada por Kardec, fazia parte desse debate.

Somente depois de compreendido esse ambiente é possível perguntar o que Kardec fez com essas concepções, quais aceitou, quais rejeitou e de que maneira procurou articulá-las com os princípios do Espiritismo.

E somente numa etapa posterior é legítimo confrontar essa construção com o desenvolvimento das ciências que ocorreu depois de sua morte.

Essa ordem é indispensável.

Compreender historicamente uma ideia não significa validá-la; avaliá-la retrospectivamente não autoriza reconstruir o passado a partir de conhecimentos que seus agentes não possuíam.


1. A posição de fundo: unidade da humanidade e fraternidade espiritual

Antes de abordar frenologia ou diferenças raciais, é necessário estabelecer qual era a concepção geral de Kardec sobre a humanidade.

Em O Livro dos Espíritos, quando pergunta se as diferenças entre as chamadas raças humanas constituiriam espécies distintas, a resposta é negativa:

“Certamente que não; todos são da mesma família.”

Na questão seguinte, pergunta-se se essas diferenças poderiam impedir que os homens se considerassem irmãos. A resposta afirma que todos são irmãos em Deus, porque são animados pelo Espírito e caminham para o mesmo fim.

Isso estabelece uma premissa importante do sistema.

As categorias raciais utilizadas naquele período não correspondiam, para Kardec, a diferentes espécies de humanidade.

Também não correspondiam a espécies diferentes de Espíritos.

Em sua concepção, todos pertenciam à mesma humanidade espiritual e encontravam-se submetidos às mesmas leis gerais de progresso.

A desigualdade de condição ou de desenvolvimento não significava, nesse sistema, diferença de natureza essencial.

Essa distinção entre natureza espiritual comum e diferenças de grau será decisiva para compreender os textos posteriores.


2. A condenação do preconceito de cor antecede o artigo de 1862

Outro documento precisa ser colocado no início da análise porque modifica substancialmente o enquadramento do problema.

Em outubro de 1861, meses antes do artigo Frenologia espiritualista e espírita — Perfectibilidade da raça negra, Kardec declarou em Lyon que o Espiritismo, ao restituir ao Espírito seu papel e estabelecer a superioridade da inteligência sobre a matéria, deveria eliminar as distinções humanas fundadas em vantagens corporais.

Na mesma passagem, atribuiu ao orgulho:

“as castas e os estúpidos preconceitos de cor”.

A cronologia é relevante:

outubro de 1861: Kardec condena explicitamente os preconceitos de cor;

abril de 1862: publica Perfectibilidade da raça negra.

Portanto, qualquer interpretação do segundo texto precisa ser compatível com o fato documental de que Kardec já havia condenado o preconceito racial antes de escrevê-lo.

Isso não demonstra que suas concepções antropológicas posteriores sejam cientificamente aceitáveis.

Demonstra algo diferente: o objetivo do artigo de 1862 não pode ser simplesmente identificado com uma tentativa de legitimar moralmente o preconceito de cor, pois essa interpretação entraria em conflito direto com uma declaração explícita e anterior do próprio autor.

Para Kardec, aparentemente, duas proposições diferentes podiam coexistir:

  1. determinados grupos humanos poderiam encontrar-se em condições diferentes de desenvolvimento ou apresentar diferentes aptidões;
  2. essas diferenças não autorizavam castas, escravidão ou preconceito baseado na cor.

É essa combinação, hoje pouco intuitiva, que precisa ser reconstruída historicamente.


3. O século XIX e a categoria científica de “raça”

Uma dificuldade fundamental na leitura desses textos está no significado da própria palavra raça.

O leitor contemporâneo conhece um estado das ciências biológicas em que as categorias raciais tradicionais não são consideradas divisões biológicas discretas da espécie humana. A antropologia biológica contemporânea enfatiza que a variação humana não se distribui segundo unidades raciais naturais equivalentes às classificações sociais de “brancos”, “negros”, “asiáticos” e outras.

Esse conhecimento, contudo, é posterior a Kardec.

Na metade do século XIX, “raça” fazia parte do vocabulário científico regular da antropologia.

Pesquisadores procuravam classificar grupos humanos segundo características físicas, origens presumidas, crânios, anatomia e outros atributos.

A questão relevante para uma análise histórica não é, inicialmente:

essas categorias estavam corretas?

Mas:

qual estatuto possuíam dentro das ciências que Kardec conhecia?

E a resposta é que tinham estatuto científico relevante.

Isso não significa que houvesse unanimidade. A antropologia oitocentista estava atravessada por controvérsias profundas.

Mas significa que um pesquisador francês da década de 1860 podia empregar categorias raciais e discutir diferenças orgânicas entre “raças” sem considerar que estava abandonando o terreno científico.

Essa constatação é essencial para compreender Kardec sem transportar automaticamente para 1862 o estado da antropologia e da genética dos séculos XX e XXI.


4. “Perfectibilidade das raças”: uma questão científica contemporânea a Kardec

O próprio título do artigo de 1862 precisa ser contextualizado.

Kardec escreve sobre a:

“Perfectibilidade da raça negra”.

A expressão “perfectibilidade das raças” não era uma criação propriamente espírita.

Em 1860, poucos anos depois da fundação da Société d’Anthropologie de Paris, a instituição discutia formalmente a perfectibilidade das raças.

Paul Broca, uma das principais figuras da antropologia física francesa, participou desse ambiente de discussão sobre as possíveis diferenças de desenvolvimento entre populações humanas.

A proximidade temporal é evidente:

1860: discussão antropológica sobre a perfectibilidade das raças;

1862: Kardec publica Perfectibilidade da raça negra.

Isso não permite afirmar que Kardec tenha copiado Broca ou mesmo que o tenha utilizado diretamente como fonte.

Sem evidência documental específica, essa genealogia seria especulativa.

O que a coincidência demonstra é algo mais seguro:

a pergunta que Kardec procura responder pertencia a um debate científico efetivamente existente na França de sua época.

A investigação não começa, portanto, com uma doutrina espírita afirmando que determinado grupo racial seria naturalmente inferior.

Kardec entra em uma questão que já estava colocada pela antropologia contemporânea e procura examiná-la segundo sua própria concepção espiritualista.


5. A posição de Kardec diante da frenologia

A frenologia desempenha papel central nessa construção.

Mas também aqui é necessário evitar uma simplificação.

Kardec não aceitava a frenologia como ciência concluída e integralmente demonstrada.

Em julho de 1860, ao tratar do tema, escreve que não pretendia decidir se ela era verdadeira ou exagerada em todas as suas consequências e reconhece explicitamente que:

“certos detalhes ainda são hipotéticos”.

Ao mesmo tempo, afirma que ela repousaria sobre aquilo que considerava um “princípio incontestável”: a relação entre o desenvolvimento ou a atrofia cerebral e as manifestações intelectuais.

Sua posição, portanto, não era de rejeição.

Kardec considerava que a frenologia possuía um núcleo válido, embora julgasse que várias de suas aplicações e consequências ainda precisassem ser examinadas.

Em 1862, sua adesão a determinada forma de especialização cerebral aparece de maneira ainda mais direta:

“Ela admite órgãos especiais para cada faculdade, e pensamos que esteja certa.”

Ao propor depois sua própria hipótese sobre fibras nervosas e diferentes nuances das faculdades, porém, acrescenta que aquilo:

“não passa de uma hipótese”.

Há, portanto, diferentes graus de certeza dentro do próprio discurso de Kardec.

Ele não trata a frenologia como um bloco homogêneo.


6. Frenologia não significava, para Kardec, materialismo

Esse ponto é fundamental para evitar um erro de interpretação.

Uma das formas de frenologia que Kardec combate é aquela que transformava o cérebro na causa das faculdades.

Segundo essa interpretação:

determinada estrutura cerebral produziria determinada aptidão intelectual ou moral.

Kardec considera essa conclusão materialista e a rejeita violentamente.

No artigo de 1862, chama essa concepção de:

“monstruosa doutrina”.

A posição espiritualista que ele adota inverte a relação causal.

As faculdades pertencem ao Espírito.

O cérebro é o instrumento pelo qual essas faculdades se manifestam durante a encarnação.

Kardec escreve que os órgãos cerebrais:

“não são a causa das faculdades, mas os instrumentos das manifestações das faculdades”.

Portanto, sua interpretação não pode ser reconstruída adequadamente como:

um cérebro racialmente inferior produz uma inteligência inferior.

Isso seria justamente a tese materialista que ele rejeita.

O problema que Kardec procura resolver é outro:

se existem diferenças orgânicas entre as raças e se essas diferenças condicionam manifestações intelectuais, como explicá-las sem fazer da matéria a causa da inteligência?


7. “A frenologia nos servirá de ponto de partida”

O começo do artigo de 1862 deixa claro esse procedimento.

Kardec afirma que pretende examinar problemas que considerava insolúveis:

“com o auxílio dos dados atuais da Ciência”.

E então declara:

“A frenologia nos servirá de ponto de partida.”

É importante compreender exatamente o que isso significa.

Kardec não afirma que a ciência de seu tempo já possuía todos os elementos necessários para resolver a questão.

Ao contrário, julga-a insuficiente.

Seu argumento é que as ciências que consideravam somente a matéria não poderiam explicar integralmente aquilo que observavam.

Ele pretende, então, acrescentar um segundo elemento: o Espírito.

Sua operação intelectual é, portanto, uma tentativa de integração.

Parte de proposições antropológicas e fisiológicas que considera suficientemente plausíveis e procura reconstruí-las dentro de uma ontologia espiritualista.


8. A hipótese do organismo como instrumento

O núcleo dessa construção pode ser representado pela metáfora utilizada pelo próprio Kardec.

Um músico pode possuir grande capacidade, mas não conseguir manifestá-la plenamente se o instrumento que utiliza for inadequado.

A deficiência do instrumento não significa deficiência do músico.

Aplicando essa comparação à encarnação:

o Espírito seria o músico;

o organismo seria o instrumento.

Kardec aplica essa lógica às diferenças que a antropologia de seu tempo atribuía às populações humanas.

Se determinados organismos apresentassem, segundo aquela ciência, menor desenvolvimento de certas estruturas cerebrais, isso não significaria que a matéria tivesse produzido um Espírito inferior.

Significaria que determinado Espírito disporia, naquela encarnação, de um instrumento com possibilidades específicas de manifestação.

É dentro desse modelo que precisam ser lidas as passagens mais difíceis do artigo.


9. O que Kardec entendia por “inferior”

O vocabulário de Kardec exige particular atenção.

Em diversos textos ele utiliza expressões como:

No sistema espírita, “inferior” não significa necessariamente uma natureza ontológica distinta ou uma inferioridade eterna.

O princípio geral é o progresso.

O estado primitivo é descrito como uma etapa transitória da humanidade, da qual o homem se afasta à medida que desenvolve suas capacidades intelectuais e morais.

Isso é importante para compreender a passagem de 1862 em que Kardec escreve:

“Como Espíritos, são inquestionavelmente uma raça inferior, isto é, primitiva.”

A expressão é extremamente problemática para o leitor atual, sobretudo porque associa uma classificação racial concreta a um suposto estágio espiritual.

Mas o complemento:

“isto é, primitiva”

mostra como Kardec estava empregando “inferior” dentro de sua teoria progressiva.

Não se tratava, para ele, de seres feitos de uma substância espiritual inferior.

Tratava-se de Espíritos que julgava encontrar-se num estágio anterior de desenvolvimento.

Essa distinção não precisa ser aceita como verdadeira para ser historicamente compreendida.


10. A questão 831 e a “desigualdade natural das aptidões”

Também é importante reconhecer que a ideia de diferenças de aptidão entre grupos humanos não surge exclusivamente no artigo frenológico de 1862.

Em O Livro dos Espíritos, questão 831, Kardec pergunta:

“A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência das raças mais inteligentes?”

A resposta aceita a existência dessa desigualdade, mas rejeita que ela legitime a escravização.

A finalidade das mais aptas deveria ser elevar as demais, e não:

“embrutecê-las ainda mais pela escravização”.

A resposta termina afirmando:

“Mais ou menos puro não é o sangue, porém o Espírito.”

Essa passagem é particularmente elucidativa porque contém, lado a lado, dois elementos que hoje podem parecer incompatíveis:

uma hierarquia de aptidões atribuída às raças

e

a rejeição de uma hierarquia essencial baseada no sangue, bem como da escravidão.

É justamente essa combinação que caracteriza o problema histórico.

Seria incorreto eliminar o primeiro elemento para apresentar Kardec como se possuísse nossa concepção contemporânea de diversidade humana.

Mas seria igualmente incorreto eliminar o segundo e reconstruí-lo como defensor de uma desigualdade racial absoluta.


11. O sentido da “perfectibilidade”

A pergunta de Kardec em 1862 é:

a raça negra é perfectível?

Essa pergunta precisa ser lida dentro das categorias de seu período.

“Perfectibilidade” designava a capacidade de determinado povo ou raça de modificar-se, desenvolver-se e alcançar graus considerados superiores de civilização e inteligência.

Kardec começa apresentando uma posição extrema, que afirma que os negros seriam:

“uma raça inferior, incorrigível, profundamente incapaz”.

Mas essa formulação é introduzida por:

“Diz-se a respeito dos negros escravos…”

Ou seja, Kardec está expondo uma posição existente.

Logo depois afirma:

“A teoria que acabamos de apresentar permite encará-los sob outro prisma.”

Portanto, “incorrigível” não é a conclusão kardeciana.

A função da reencarnação em seu argumento é precisamente tornar a condição transitória.

O Espírito poderia desenvolver-se ao longo de existências sucessivas.

Aquilo que ele considerava limitado era o organismo de determinada encarnação, não o destino final do Espírito.


12. Onde a construção de Kardec se torna especificamente racial

É aqui, porém, que surge a parte mais delicada da teoria.

Kardec não se limita a dizer que diferentes indivíduos possuem organismos diferentes.

Ele associa determinados tipos de organização corporal às categorias raciais empregadas pela antropologia de sua época.

Segundo seu argumento, determinados corpos classificados como pertencentes a raças consideradas menos desenvolvidas teriam possibilidades menores de manifestação intelectual.

Assim, enquanto o Espírito poderia continuar progredindo, determinado “envoltório” corporal teria limites próprios.

Essa construção aparece explicitamente no artigo de 1862.

Vista de dentro do quadro conceitual que Kardec aceitava naquele momento, a argumentação possui uma coerência identificável:

Essa reconstrução histórica é importante porque mostra como Kardec chegou à conclusão, em vez de apenas confrontar a conclusão com o conhecimento contemporâneo.


13. A raça não constitui identidade permanente do Espírito

Outro elemento do sistema impede interpretar essas categorias como “raças espirituais” permanentes.

A reencarnação faz com que o Espírito possa ocupar sucessivamente corpos pertencentes a populações distintas.

Essa possibilidade aparece de maneira particularmente clara em um texto de 1866.

Comentando o caso de um negro dotado de extraordinárias capacidades, Kardec admite como explicação possível a reencarnação:

“não de um negro num negro, mas de branco num negro”.

Quando antecipa a objeção de que isso representaria uma retrogradação, responde:

“não retrogradação do Espírito, pois teria conservado suas aptidões e suas aquisições”.

A passagem demonstra que, para Kardec, ser negro ou branco não era atributo permanente do Espírito.

O corpo poderia mudar.

As aquisições espirituais permaneceriam.

Esse ponto é indispensável para não transformar sua teoria corporal das raças em uma doutrina de espécies espirituais racialmente distintas.


14. Uma tensão interna interessante

O texto de 1866 também cria uma dificuldade dentro da construção de 1862.

Se um Espírito que tivesse desenvolvido grandes aptidões numa existência anterior poderia encarnar negro e conservar suas aquisições, até que ponto o organismo racial limitaria efetivamente sua manifestação?

A teoria de Kardec poderia responder que conservar a faculdade espiritualmente não significa necessariamente manifestá-la corporalmente em toda a sua extensão.

Isso preservaria a metáfora do músico e do instrumento.

Ainda assim, o texto mostra que sua reflexão não deve ser apresentada como um sistema antropológico absolutamente rígido e uniforme.

Kardec procura ajustar diferentes observações à sua teoria da reencarnação e da relação entre Espírito e organismo.

Algumas dessas formulações permanecem em tensão.

Reconhecê-las é mais historicamente adequado do que tentar eliminar toda inconsistência retrospectivamente.


15. A hipótese permanece em A Gênese

Também não seria correto considerar o artigo de 1862 uma especulação passageira posteriormente abandonada.

Em A Gênese, publicada em 1868, Kardec retoma explicitamente o tema.

Afirma que as:

“raças mais inteligentes”

teriam avançado mais rapidamente e sustenta que Espíritos em progresso poderiam chegar a um ponto em que determinados corpos deixariam de corresponder ao grau alcançado.

Refere-se então a corpos de determinada “raça física” como inadequados a certo desenvolvimento intelectual e moral e remete diretamente ao artigo Perfectibilidade da raça negra, de 1862.

Isso possui importância historiográfica.

A associação entre condição racial, organismo e manifestação espiritual não permaneceu apenas numa página circunstancial da Revista Espírita.

Kardec continuou considerando a construção suficientemente válida para incorporá-la a uma obra de síntese publicada seis anos depois.

Qualquer análise séria precisa reconhecer esse fato.


16. Isso significa que Kardec defendia o preconceito racial?

Os documentos não autorizam essa conclusão de maneira simples.

Kardec utilizou categorias raciais hierarquizadas e admitiu diferenças de aptidão entre grupos humanos.

Isso está documentado.

Mas também estão documentadas:

Portanto, reduzir todo esse conjunto documental à afirmação:

“Kardec acreditava na inferioridade dos negros e era racista”

pode obscurecer tanto quanto uma tentativa apologética de negar as passagens problemáticas.

Há uma diferença entre identificar proposições racialmente hierarquizantes e reconstruir a concepção moral global de um autor.

Kardec aparentemente não entendia que admitir diferenças naturais de aptidão implicasse negar a fraternidade, justificar a escravidão ou cultivar preconceito de cor.

Essa combinação pertence ao horizonte intelectual que precisa ser compreendido antes de ser avaliado.


17. Racismo e racialismo: cuidado com categorias posteriores

O termo racismo, especialmente em seu sentido contemporâneo, possui uma história própria.

Aplicá-lo retrospectivamente pode ser legítimo, desde que se explique exatamente o que se está classificando.

Se racismo for definido como qualquer crença na existência de hierarquias naturais entre grupos racialmente classificados, diversas afirmações de Kardec podem receber essa classificação a partir de critérios atuais.

Se, porém, o termo for utilizado para sugerir defesa da escravidão, segregação, preconceito de cor ou desigualdade espiritual essencial, essa caracterização entra em conflito com outras declarações explícitas do próprio Kardec.

Por isso, para fins de história intelectual, pode ser mais informativo descrever primeiro as proposições concretas e só depois discutir o rótulo.

O termo racialismo pode ajudar a indicar a aceitação de uma classificação da humanidade em raças dotadas de características diferentes, sem por isso resolver automaticamente toda a questão moral envolvida.

Mas também precisa ser utilizado com cuidado.

Não deve funcionar como eufemismo para tornar inofensivas ideias que efetivamente estabeleciam hierarquias humanas.

A prioridade analítica deve permanecer sobre as proposições, não sobre o rótulo pessoal.


18. O que mudou posteriormente nas ciências

Somente depois de reconstruído esse horizonte histórico é adequado introduzir o conhecimento posterior.

A antropologia biológica e a genética contemporâneas não descrevem a humanidade segundo o modelo de raças biológicas discretas empregado por grande parte da antropologia do século XIX.

A variação biológica humana existe, evidentemente, e diferentes populações apresentam diferentes frequências genéticas e histórias de ancestralidade.

O que não se sustenta é a divisão da espécie em conjuntos raciais naturais, homogêneos e delimitados correspondentes às tradicionais categorias sociais de “branco”, “negro” e outras.

A American Association of Biological Anthropologists resume essa posição afirmando que as categorias raciais não representam adequadamente a variação biológica humana e que as populações humanas não constituem tipos continentais biologicamente discretos.

Isso modifica profundamente o estatuto das premissas utilizadas pela antropologia racial do século XIX.

Portanto, aquilo que para Kardec podia funcionar como questão científica — qual seria a capacidade orgânica própria de determinada raça? — deixou de ser formulado dessa maneira pelas ciências contemporâneas.

Esse é o ponto em que uma avaliação retrospectiva pode legitimamente começar.


19. A revisão não exige supor irracionalidade em Kardec

Há uma diferença importante entre dizer:

Kardec raciocinou de maneira irracional

e dizer:

parte das premissas científicas sobre as quais ele raciocinou deixou de ser aceita posteriormente.

As duas afirmações não são equivalentes.

Se partirmos das premissas que Kardec considerava plausíveis:

sua tentativa de explicar essas diferenças pela relação entre Espírito e instrumento corporal possui coerência interna.

A fragilidade retrospectivamente identificável encontra-se principalmente no estatuto das premissas antropológicas e fisiológicas utilizadas.

Uma vez modificadas essas premissas, perde-se a necessidade da construção específica destinada a explicá-las.

Isso constitui um caso interessante de dependência de uma teoria em relação ao conhecimento auxiliar disponível numa determinada época.


20. Kardec e a ciência em construção

Esse ponto ganha importância porque o próprio Kardec reconhecia que a frenologia ainda continha elementos hipotéticos.

Em 1860, sua atitude não era a de sacralizar a disciplina, mas a de investigar aquilo que nela pudesse ser verdadeiro e aquilo que pudesse ser falso.

Isso oferece uma chave metodológica para a questão.

Se uma explicação espírita foi construída em associação com determinado conhecimento científico e esse conhecimento posteriormente se modifica, não é necessário transformar aquela aplicação histórica numa afirmação imutável.

É possível distinguir:

o princípio filosófico geral

da

aplicação construída a partir do conhecimento científico disponível.

No caso analisado, a distinção entre Espírito e organismo pertence à arquitetura geral do sistema espírita.

Já a proposição de que determinados organismos racialmente classificados oferecem capacidades intelectuais naturalmente distintas depende de uma antropologia específica.

Essas duas afirmações não possuem necessariamente o mesmo estatuto.


21. Anténor Firmin e a transformação do debate ainda no século XIX

Também seria incorreto representar toda a ciência oitocentista como uniformemente racialista.

Anténor Firmin é um exemplo importante.

Nascido em 1850, ingressou na Société d’Anthropologie de Paris em 1884 e publicou em 1885 De l’égalité des races humaines — Anthropologie positive, obra de crítica às teorias antropológicas de desigualdade racial.

A cronologia, entretanto, precisa ser respeitada.

A obra de Firmin foi publicada:

23 anos depois do artigo de Kardec de 1862

e

16 anos depois da morte de Kardec.

Firmin não pode, portanto, ser utilizado como se fornecesse a Kardec uma refutação que este teria deliberadamente ignorado.

Sua importância é diferente.

Ele mostra que o próprio século XIX não era intelectualmente imóvel e que as concepções raciais discutidas por Kardec também seriam submetidas, posteriormente dentro do mesmo século, a críticas sistemáticas.

A ciência que forneceu a Kardec determinadas categorias continuou transformando-se depois dele.


22. Como interpretar historicamente o problema

Uma análise equilibrada precisa conservar simultaneamente vários fatos.

Kardec:

Ao mesmo tempo:

Nenhum desses fatos precisa ser eliminado para tornar os demais compreensíveis.

A complexidade está justamente em sua coexistência.


Conclusão

As afirmações de Allan Kardec sobre as chamadas raças humanas precisam ser estudadas primeiro como documentos do século XIX e somente depois avaliadas à luz do desenvolvimento posterior do conhecimento.

Kardec escreveu num período em que “raça” constituía categoria científica regular da antropologia física e em que instituições e pesquisadores importantes discutiam diferenças orgânicas, intelectuais e de “perfectibilidade” entre populações humanas.

Nesse ambiente, a pergunta sobre uma eventual diferença natural de capacidades entre raças não possuía o mesmo estatuto epistemológico que possui atualmente.

Kardec não aceitou passivamente todas as conclusões dessas ciências.

Em relação à frenologia, considerava alguns princípios suficientemente fundamentados, outros ainda hipotéticos e rejeitava radicalmente sua interpretação materialista.

Sua contribuição específica foi tentar articular aquilo que considerava dados ou hipóteses científicos com sua concepção da independência do Espírito.

Se a inteligência pertence ao Espírito e o cérebro é seu instrumento, então as diferenças orgânicas que a ciência daquele período julgava encontrar entre as raças precisariam ser interpretadas como diferenças de instrumento, e não como diferentes naturezas espirituais.

É dentro dessa lógica que surge a teoria apresentada em 1862.

Kardec efetivamente associou determinados grupos humanos a graus diferentes de desenvolvimento e admitiu que organismos racialmente classificados oferecessem diferentes possibilidades de manifestação intelectual.

Essa concepção não ficou restrita ao artigo da Revista Espírita: elementos dela reaparecem em A Gênese, em 1868.

Mas interpretar essas afirmações como demonstração suficiente de que Kardec pretendia estabelecer uma doutrina moral de inferioridade racial ignora outros elementos igualmente documentados de sua obra.

Kardec afirmava a unidade da família humana, rejeitava qualquer pureza espiritual fundada no sangue, condenava a escravidão, admitia a reencarnação entre diferentes condições raciais e, antes mesmo do artigo de 1862, qualificava os preconceitos de cor como “estúpidos” e derivados do orgulho.

Seu pensamento combina, portanto, elementos que hoje tendemos a separar: uma antropologia racialmente hierarquizada e uma ética de fraternidade espiritual que rejeita o preconceito fundado na raça.

Essa combinação precisa ser compreendida dentro de seu tempo antes de ser julgada fora dele.

O desenvolvimento posterior da antropologia e da genética modificou profundamente o quadro científico que sustentava aquelas classificações. As tradicionais raças humanas deixaram de ser compreendidas como unidades biológicas discretas dotadas de capacidades intelectuais naturais próprias.

Nesse novo quadro, a pergunta antropológica sobre a qual Kardec construiu parte de sua explicação deixou de possuir o mesmo fundamento.

Não é necessário, contudo, concluir daí que seu raciocínio fosse simplesmente irracional.

Mais precisamente, uma construção internamente coerente foi elaborada sobre premissas científicas historicamente situadas cujo estatuto mudou com o desenvolvimento posterior do conhecimento.

Essa distinção é central para uma avaliação não anacrônica.

Ela permite reconhecer sem disfarces aquilo que Kardec efetivamente escreveu, compreender por que suas afirmações podiam parecer plausíveis dentro de determinado horizonte científico e, ao mesmo tempo, reconhecer que esse horizonte não permaneceu intacto.

O caso oferece, assim, um exemplo particularmente importante da relação entre Espiritismo e ciência na obra kardeciana.

Quando uma explicação espírita incorpora elementos provenientes das ciências de uma época, ela também passa a compartilhar, em alguma medida, da provisoriedade desses elementos.

Se esses conhecimentos forem posteriormente reformulados, as aplicações que deles dependem precisam igualmente ser reexaminadas.

Isso não constitui necessariamente uma ruptura com o método de Kardec.

Pode ser entendido como consequência dele.

A análise historicamente mais rigorosa, portanto, não exige transformar Kardec nem em um autor infalível que antecipou o conhecimento atual, nem em um personagem deslocado de seu próprio século e julgado como se tivesse à disposição a antropologia e a genética contemporâneas.

Exige algo mais difícil: compreender o que ele pensou a partir das possibilidades intelectuais de seu tempo, distinguir o que pertencia ao núcleo de sua filosofia daquilo que dependia das ciências então disponíveis e acompanhar criticamente o que ocorreu quando essas próprias ciências se transformaram.

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