Chega um momento na história em que o silêncio deixa de ser prudência para se tornar crime. Torna-se omissão. Torna-se cumplicidade. A fundação da União Espírita Brasileira é o grito de quem não suporta mais assistir, em mudo horror, à erosão devastadora do Espiritismo em solo brasileiro.
Por mais de um século, a Doutrina foi asfixiada. Camadas espessas de misticismo, correntes de dogmatismo e a idolatria cega a médiuns sufocaram a essência racional e investigativa que era sua alma. A fé raciocinada — aquele farol de lucidez — foi apagada para dar lugar à crença servil. O estudo rigoroso foi substituído pela repetição mecânica de frases vazias. O método experimental de Allan Kardec, a pedra angular de todo o edifício, foi abandonado ao relento, enquanto caprichos pessoais e supostas “revelações” privadas usurparam o trono dos princípios universais da ciência espírita.
Mas a verdade é imortal. Ela pode ser soterrada por séculos de mentiras, pode ser combatida com fúria, ridicularizada pelo orgulho ou traída por aqueles que juraram protegê-la — mas ela permanece. Viva. Pulsante. Aguardando a chegada de homens e mulheres que possuam a coragem necessária para sustentá-la contra a correnteza.
A União Espírita Brasileira emerge desse compromisso sagrado.
Não nascemos da sede de poder. Não nascemos da vaidade de erguer mais um império ou da mendicância por aceitação social. Nascemos da responsabilidade moral esmagadora de declarar o que muitos sussurram nos corredores, mas poucos ousam gritar publicamente: o Espiritismo não pertence a instituições, não pertence a médiuns, não pertence a dirigentes. Ele jamais sobreviverá se for acorrentado ao culto de personalidades ou à submissão intelectual.
No passado, heróis anônimos levantaram-se para salvar a obra kardequiana das garras da adulteração. Hoje, surge um novo movimento de resistência. Não é apenas uma organização; é uma barricada doutrinária. Um esforço desesperado e heróico para recuperar a lucidez, a honestidade intelectual e a sagrada liberdade de consciência.
A fundação da União Espírita Brasileira é, acima de tudo, um reencontro. O reencontro visceral com o Espiritismo sério, racional e livre. O reencontro com a audácia de questionar. O reencontro com o dever árduo de estudar, comparar, observar e compreender. É a verdade, enfim, posta acima de qualquer conveniência humana.
E a verdade exige um preço: a coragem.
Coragem para estilhaçar velhos condicionamentos. Coragem para encarar de frente décadas de distorções que foram normalizadas pelo tempo. Coragem para defender a luz, mesmo que isso signifique enfrentar a incompreensão, o isolamento cruel e os ataques inevitáveis daqueles que lucram com a cegueira alheia.
A União Espírita Brasileira nasce para isso. Para reunir os sobreviventes da razão. Para lembrar ao mundo que o Consolador Prometido não veio para criar servos intelectuais, mas para rasgar os véus da ignorância e libertar as consciências através da razão, da verdade e da investigação sincera.
Declaração da União Espírita Brasileira
A União Espírita Brasileira, nascendo de um esforço colaborativo livre e independente de indivíduos interessados na proteção e no resgate do Espiritismo verdadeiro, conforme organizado nas 23 obras de Allan Kardec, estabelece-se como uma força de oposição a todas as vexatórias distorções impostas à Doutrina Espírita, desde a França, após a morte de Kardec, mas especialmente no Brasil, desde a tomada da Federação Espírita Brasileira por seguidores da doutrina de Jean Baptiste Roustaing.
Por conta dessa invasão de pessoas guiadas por princípios fundamentalmente contrários ao Espiritismo, quais sejam a não encarnação de Jesus e sistemas do dogma da encarnação como castigo e da retrogradação da alma, esse grupo fez da FEB a nova “Casa de Ismael”, título e história orgulhosamente apresentados pela FEB, ainda hoje (sic!).
Ismael, Espírito imperfeito que, ao longo de mais de 140 anos, tem defendido a mesma doutrina de Roustaing e, tendo alcançado a fascinação desse grupo, desde 1895 comanda os princípios da FEB, conseguindo criar a mais profunda divisão possível no Movimento Espírita Brasileiro: de um lado, estudiosos e defensores do Espiritismo verdadeiro; do outro, pessoas que levianamente renegaram o Espiritismo em nome de uma fé cega, abolindo o exame crítico das comunicações espíritas e provocando todo tipo de distorção vexaminosa ao Espiritismo, apresentando ao pública uma face ilógica, irracional e religiosa daquilo que deveria ser simplesmente uma ciência filosófica de aspecto moral.
Federação Espírita Brasileira, que de “espírita” só tem o nome, já que nunca agiu em favor de sustentar os pilares centrais da doutrina espírita, quais sejam a fé raciocinada, o exame crítico a toda e qualquer comunicação espírita, sem exceções, o zelo com as publicações feitas em nome do Espiritismo e a continuidade dos princípios exaustivamente defendidos por Allan Kardec, até o final de seus dias.
Os princípios que nos unem, portanto, são:
O combate, sempre no campo das ideias, às distorções causadas ao Espiritismo.
A divulgação do Espiritismo, conforme a ciência espírita, contida nas 23 obras de Kardec e, infelizmente, ali interrompidas, pelo abandono da metodologia e da organização necessárias.
A UEB, seguindo os princípios defendidos por Kardec, não visa e nem pode visar ser uma instituição acima do Movimento Espírita, como a FEB fez, autointitulando-se “Casa-Mater do Espiritismo no Brasil”. O que deve ser Mater – mãe – do Movimento Espírita é a unidade doutrinária, baseando-se na sólida rocha que é a ciência espírita. Não buscamos, portanto, uma unificação, como essa perseguida pela FEB para colocar todo o movimento espírita aos pés de sua doutrina roustanguista/ismaelista antiespírita. Os agrupamentos, sociedades e instituições devem estar abaixo dos princípios da Doutrina Espírita, servindo apenas como foco de união e propagação, mas nunca, jamais, ditando rumos conforme os gostos ou ideias desse ou daquele indivíduo, grupo, instituição ou sistema, conforme bem demonstrado nos artigos “Organização do Espiritismo”, na Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1861 e “Constituição transitória do Espiritismo”, na Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1868.
Importa destacar que esta livre reunião é apolítica, sendo, inclusive, crítica à frequente tentativa de moldar o Espiritismo conforme as vertentes políticas de direita e de esquerda.
Da mesma forma que a nossa iniciativa é apolítica, é também não religiosa. Tal como sempre recomendado por Kardec, não adotamos sinais, cultos, rituais e nem mesmo o Pai Nosso em nossas reuniões, para que não exista conflito com a religião que cada um possa ter.
As indicações de obras extremamente importantes para o necessário conhecimento de todos esses fatos, dentre elas “O Legado de Allan Kardec“, de Simoni Privato, “Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo“, de Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio, e “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo“, de Paulo Henrique de Figueiredo, encontram-se disponíveis no site do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec.
Ata da Primeira Reunião da União Espírita Brasileira – UEB
Local: Ambiente Virtual
Data: 23 de maio de 2026
Horário: 10h00 às 10h53 (horário de Brasília)
Coordenação da Reunião: Paulo
Redação da Ata: Ariane
1. Abertura (início às 10h00 – horário de Brasília)
Iniciativa e Nascimento da União: Paulo apresentou a iniciativa da União, baseada no conteúdo de seu vídeo anterior nas redes sociais. Ele contou sua história no Espiritismo.
2. Participantes e Apresentações
Cerca de 30 pessoas participaram desta primeira reunião, oriundas várias partes do Brasil e do mundo.
Os participantes se apresentaram (alguns participantes não tiveram seus nomes registrados):
Marcos: De Salvador, é espírita há bastante tempo.
Olney: Brasileiro hoje em Portugal, contou sua história pessoal no Espiritismo. Destacou a necessidade de retomar Kardec e a importância de unir os espíritas. Comentou também sobre a importância da análise das comunicações mediúnicas para o entendimento doutrinário.
Casal Maria Clara e Antonio Pereira Neto – Belém-PA: Contaram sua história no Espiritismo. Comentaram sobre a análise de comunicações mediúnicas.
Henrique Miranda: Radialista do RJ, ligado à FEB, e comentou sobre “faculdade de Espiritismo” (nome não confirmado).
Ariane: Apresentou-se e comentou sobre a rede de restabelecimento.
Rodrigo: Apresentou-se.
Nelson: Apresentou-se.
Eudes de Avelar: Repudiou o livro Coração do Mundo Pátria do Evangelho e mencionou seu trabalho com moradores de rua.
Elvira: Manifestou-se muito interessada, com muitas dúvidas.
Jorge Amaranto Juchem Jr, Barão/RS
3. Discussões e Contribuições
Histórico e Inspiração: Paulo contou a história da criação da União Espírita Francesa, que teve a participação de Berthe Fropo (amiga da família), Amelie Boudet (esposa de Kardec), Delanne pai e filho, Leon Denis e outros. Ele informou que a UEP criou a revista “Le Spiritisme”. Paulo disse que, por inspiração dessa história, surgiu a ideia de criar a União Espírita Brasileira (UEB). A inspiração surgiu ao mesmo tempo com outra integrante de nosso grupo. A ideia passou então a ser desenvolvida pelo grupo, culminando na criação da União Espírita Brasileira e do portal uniaoespiritabrasileira.com.br.
Declaração da União: foi registrado que pautaremos os esforços sempre nos princípios registrados na Declaração da UEB.
Revista ou Jornal Periódico da UEB: Foi discutida a criação de uma revista periódica da UEB. Olney e outros participantes debateram como estabelecer essa revista. Houve a discussão da possibilidade de utilização da Revista Semear já estabelecida para incorporar as ideias da UEB. Foi sugerida a criação de um novo periódico exclusivo da UEB com o nome “O Espiritismo”. Paulo informou que colocará o site https://www.geolegadodeallankardec.com.br/ e toda a sua estrutura à disposição para a criação e divulgação do jornal O Espiritismo.
Posicionamento da UEB: Marcos enfatizou que a União não pode ter a intenção de gerar uma nova FEB ou se colocar acima de qualquer outro grupo ou pessoa, destacando, ainda, que não é um grupo religioso.
Tecnologia e Disseminação: Pablo Lucas sugeriu focar em tecnologia e disseminação, propondo “tirar a raiz do problema” e agir gradualmente (“de grão em grão a galinha enche o papo”).
4. Encaminhamentos e Propostas
Canais nas Redes Sociais: Foi solicitado aos participantes que disponibilizassem seus canais nas redes sociais no grupo de Whatsapp.
Resolução de Dúvidas: Pablo Lucas sugeriu a realização de lives dos participantes engajados para tirar dúvidas.
Disseminação: Pablo Lucas sugeriu a criação de um perfil de UEB nas redes sociais. Foi informado que a UEB já possui perfis no TikTok e Instagram, alem do site uniaoespiritabrasileira.com.br.
5. Encerramento ( às 10h53, horário de Brasília)
Foi manifestada a intenção de elaborar esta ata. Foi registrado que a reunião não foi gravada por motivos legais.
Foi encaminhada a necessidade de uma nova reunião em data oportuna.
A reunião foi encerrada com saudações finais de todos os participantes.
Subscrevem publicamente a esta ata, pelo que ficamos bastante felizes:
Adinei José Faria – Cidade de Aracruz-ES
Adyr Rodrigues Nascimento – Belo Horizonte, MG
Anderson de Sousa Tavares/Campina Grande PB
Andrea Freitas Jardim – Imbé RS
Angelita – Barão/Rs
Antonio Marcos Brito de Cerqueira – Salvador
Antonio Pereira Neto e Maria Clara – Belém-PA
Ariane Netto Daud – São Paulo – SP
Ceres Postali Marcon – Antonio Prado – RS
Daniela Bissolotti – Barão/RS
Edvalson Carvalho Cavalcanti- São Luís/MA
Elvira Carvalho Curi Ramos – Salvador – BA
Gilberto Alfredo de Freitas da Silveira, Viamão, RS
Irléia e estou em Natal (Rio Grande do Norte).
Isabella rodrigues, jacareí SP
Jeferson Cândido do Nascimento – João Pessoa / Paraíba
Jessica Dubal – Barão/RS
Johano Rolim – Sapucaia RJ
Jonas Pires Portela
Jonas Pires Portela / Barão,RS
Jorge Amaranto Juchem Junior Barão/RS
Olney Leite Fontes, Braga – Porugal
Paulo Degering Rosa Junior – São Paulo – SP
Rodrigo Ribeiro de Souza / Curitiba – PR
Tula Di Vito Franco – Uberaba/MG
Víctor Dian Machado Martins dos Santos. Davinópolis/Goiás.
Vinicius Kmez – São Bernardo do Campo/SP
Walmir Araújo – Buíque-PE
União Espírita Francesa: O Baluarte na Defesa do Legado de Allan Kardec
A União Espírita Francesa (UEF) surgiu em um momento crítico para o movimento espírita na França, logo após a desencarnação de Amélie-Gabrielle Boudet, viúva de Allan Kardec, em 1883. Seu papel fundamental foi o de atuar como um “paládio de um princípio”, protegendo a integridade da doutrina codificada por Kardec contra tentativas de infiltração de ideias consideradas místicas, dogmáticas ou puramente especulativas.
1. Fundação e Missão Providencial
A UEF foi constituída como um centro ativo de estudos e propaganda espírita, surgindo como uma resposta direta à percepção de que a causa espírita estava em perigo sob a direção de certos homens entrincheirados em sua onipotência. A instituição não se via como uma iniciativa de cisão, mas como uma defesa leal da causa, destinada a precaver os adeptos contra “empreitadas trevosas” que utilizavam a bandeira do espiritismo para introduzir teorias estranhas à obra original.
Seu objetivo principal era manter a filosofia dos Espíritos em sua integralidade, seguindo o plano racional e científico legado por Kardec, repudiando qualquer “solidariedade de má índole” com sistemas hostis às convicções científicas consagradas.
2. O Combate ao “Roustainguismo” e ao Teosofismo
Um dos papéis mais marcantes da União Espírita Francesa foi o confronto direto com a obra de Jean-Baptiste Roustaing e a propaganda teosófica. A UEF denunciou a “agressão póstuma” de Roustaing contra Kardec, materializada em um panfleto que acusava o Codificador de ser autoritário e dogmático.
Os membros da UEF, como Sophie Rosen, Gabriel Delanne e Berthe Fropo, argumentavam que:
As teorias de Roustaing, especialmente a do corpo fluídico de Jesus, eram hipóteses arriscadas e sem provas, que transformariam o sacrifício do Calvário em uma “comédia indigna”.
A obra de Roustaing era fruto de uma “forte obsessão” e tentava ressuscitar dogmas católicos, como a Imaculada Conceição, sob uma nova roupagem.
O teosofismo de Blavatsky era incompatível com as convicções íntimas dos espíritas racionais.
3. O Papel do Jornal “O Espiritismo”
Para cumprir sua missão, a UEF fundou o jornal “O Espiritismo” (Le Spiritisme), que servia de órgão para suas crenças e era aberto a toda verdade demonstrada. A União criticava severamente a direção da Revista Espírita da época, sob Pierre-Gaëtan Leymarie, acusando-a de ser complacente com os inimigos de Kardec e de falhar em sua missão de fidelidade incorruptível à doutrina. O jornal da UEF, portanto, tornou-se a voz de resistência contra o que chamavam de “conspiração do silêncio” e as manobras para diminuir a importância do Mestre.
4. Figuras Centrais e a Luta Pela Pureza Doutrinária
A União Espírita Francesa foi liderada por figuras que conviveram intimamente com o casal Kardec, o que lhes conferia autoridade moral para defender o legado. Entre seus signatários e defensores destacam-se:
Sophie Rosen (Dufaure): Ex-vice-presidente da Sociedade Científica de Estudos Psicológicos de Paris, que alertou sobre as seitas que disputavam a precedência no movimento.
Gabriel Delanne: Que refutou tecnicamente as teorias do corpo fluídico, demonstrando sua incompatibilidade com a ciência e o ensino geral dos espíritos.
Berthe Fropo: Amiga devotada dos Kardec, que estigmatizou a difamação dirigida contra o túmulo do Codificador e defendeu a necessidade de um “Jesus que sangra” como exemplo real de superação.
Conclusão
O papel da União Espírita Francesa foi o de sentinela da ortodoxia kardecista. Em um período em que o nome de Allan Kardec chegava a ser suprimido de outras sociedades em favor de títulos mais “elásticos” como “Sociedade Científica do Espiritismo”, a UEF manteve o nome do Mestre inscrito em sua bandeira em “letras de ouro”, garantindo que o espiritismo não naufragasse em um mar de especulações teológicas ou místicas.
Bibliografia
UNIÃO ESPÍRITA FRANCESA. J.-B. Roustaing diante do Espiritismo: resposta a seus alunos. Tradução de Abílio Ferreira Filho. Prefácio de Jorge Hessen. [S. l.]: Autores Espíritas Clássicos; Portal Luz Espírita, 2019.
O Espiritismo não deve jamais estar sob instituições
Desde os primeiros grupos isolados até os centros mais numerosos, uma preocupação constante orientou os fundamentos da Doutrina Espírita: evitar que ela se cristalizasse em instituições rígidas, burocráticas ou centralizadoras. Longe de ser uma lacuna organizacional, essa recusa estrutural é uma marca de sua identidade e uma condição para sua perpetuidade.
1. A natureza do Espiritismo é moral e filosófica, não institucional
O Espiritismo não é uma religião revelada com poder hierárquico, nem uma seita com autoridade central. Como bem expressa o texto, “o verdadeiro espírita não é o que alcançou a meta, mas o que seriamente quer atingi-la”. O progresso moral é individual, livre e interior. Qualquer tentativa de enquadrar esse processo em instituições formais correria o risco de substituir a consciência pela norma, a caridade pela disciplina, a fraternidade pela burocracia.
As próprias instruções de Kardec recomendam que as reuniões espíritas permaneçam no âmbito familiar, sem presidências fixas, sem estatutos rígidos, sem necessidade de personalidade jurídica. “Cada grupo naturalmente é dirigido pelo chefe da casa”, e “tudo se passa em família”. Essa simplicidade não é acidental: é a forma mais autêntica de preservar a liberdade de consciência e a espontaneidade mediúnica.
2. As instituições geram divisões, não unidade
O texto é claro ao apontar que “sociedades propriamente ditas estão sujeitas a numerosas vicissitudes”. As instituições criam engrenagens administrativas, eleições, presidentes, orçamentos – e, com eles, disputas de poder, ciúmes, ambições e cismas. Kardec adverte: “a causa mais comum de divisão entre cointeressados é o conflito de interesses”.
Ao contrário do que se poderia supor, a unidade doutrinária não se alcança por uma instituição central, mas pela adesão voluntária a princípios comuns, especialmente os contidos no Livro dos Espíritos e no Livro dos Médiuns. A uniformidade decorre da base, não da imposição. “Um grupo formado exclusivamente por verdadeiros espíritas cristãos estaria nas melhores condições”, mas isso não exige nenhum reconhecimento institucional.
3. O Espiritismo é progressivo, e as instituições são conservadoras
Uma das teses centrais do texto é que o Espiritismo é essencialmente progressivo. “O princípio progressivo, que ela inscreve no seu código, será a salvaguarda de sua perpetuidade.” As instituições, por natureza, tendem a imobilizar, regulamentar, definir dogmas. O Espiritismo, ao contrário, deve estar sempre aberto a novas verdades, a novas leis da natureza, a novas interpretações.
Se uma instituição espírita se formasse, ela inevitavelmente representaria um estado provisório do conhecimento, mas tenderia a se perpetuar como autoridade. Ora, “a imobilidade, em vez de ser uma força, torna-se a causa de fraqueza e de ruína”. O Espiritismo não pode se curvar a nenhuma instituição, justamente porque sua força está em sua capacidade de assimilar o que há de verdadeiro, onde quer que surja.
4. A direção coletiva transitória não é uma instituição permanente
O próprio Kardec propõe um “Comitê Central” e uma “Constituição Transitória”, mas com cautelas extremas: trata-se de um expediente prático, não de um governo espiritual. O comitê é um “chefe coletivo” sem poder disciplinar, sem supremacia material, sem autoridade sobre a consciência. Seus membros revezam-se por sorteio, e suas decisões valem apenas como opinião, não como dogma.
Além disso, o texto insiste que esse comitê não pode absorver os grupos, nem controlar os adeptos. “Os espíritas do mundo inteiro terão princípios comuns, mas cuja aplicação poderá variar conforme as regiões.” Haverá tantos centros quantos forem necessários, sem subordinação de uns aos outros. O próprio comitê de Paris é definido como uma sociedade iniciadora, não normativa.
5. O risco da institucionalização é a descaracterização
Kardec é taxativo: “O Espiritismo não deve ser imposto.” Qualquer tentativa de institucionalizar a doutrina – com estatutos, tribunais, censores, órgãos deliberativos – fere a liberdade de consciência e a tolerância, que são suas marcas mais profundas.
Além disso, a história das religiões mostra que as instituições tendem a burocratizar o sagrado, a substituir o amor pelo poder, a caridade pela disciplina. O Espiritismo, por sua própria natureza, deve escapar a esse destino. “Se o Espiritismo não tivesse saído das mesas girantes, não teria crescido como cresceu.” Do mesmo modo, se ele se institucionalizar, deixará de ser o que é: uma doutrina de libertação moral, não de submissão estrutural.
Conclusão
O Espiritismo não deve jamais estar sob instituições porque ele é, por definição, livre, progressivo e pessoal. Toda instituição fixa tende a corroer essas três características. O verdadeiro laço espírita não é o estatuto, mas o amor; não é a hierarquia, mas o exemplo; não é o regulamento, mas a consciência. Como bem sintetiza o texto: “Os que não querem qualquer autoridade não compreendem os verdadeiros interesses da doutrina.” Mas essa afirmação não é um convite à anarquia: é um reconhecimento de que a única autoridade legítima no Espiritismo é a da verdade moral, livremente aceita, e jamais institucionalizada.
O Resgate da Verdade: O Espiritismo entre a Razão de Kardec e as Amarras do Dogma
O Espiritismo não nasceu para ser mais uma religião engessada por dogmas ou uma seita fechada. Quando Allan Kardec codificou a doutrina no século XIX, ele a estabeleceu como uma ciência filosófica com consequências morais. Seu alicerce era o Espiritualismo Racional — um movimento vanguardista que substituía a fé cega pela fé raciocinada e o materialismo bruto por uma compreensão científica da alma. O objetivo era claro e ambicioso: promover uma revolução moral e a renovação social da humanidade, fundamentada na liberdade absoluta e na autonomia intelectual do indivíduo.
No entanto, a história nos revela que essa luz da razão foi deliberadamente obscurecida. Kardec, prevendo que sua obra seria alvo de desvios, deixou arquivos rigorosos para que a verdade pudesse ser recuperada. O que se seguiu à sua morte, em 1869, não foi a evolução natural de seu pensamento, mas um verdadeiro golpe institucional.
A Traição na França: A Adulteração do Saber
Imediatamente após o desencarne de Kardec, o movimento espírita na França foi invadido por interesses escusos. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi marginalizada e a Revista Espírita caiu em mãos que, embora fingissem amizade, trabalhavam para descaracterizar a obra.
O crime mais grave foi a adulteração sistemática dos livros fundamentais. Documentos oficiais comprovam que a quinta edição de “A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo” (1872) sofreu mais de cem modificações. Conceitos vitais, como a conquista progressiva do livre-arbítrio, foram apagados para dar lugar a ideias místicas, como a noção de um corpo fluídico para Jesus. Obras como “O Céu e o Inferno” também foram manipuladas para inverter a compreensão da justiça divina.
Essas mudanças não foram erros editoriais, mas manobras orquestradas pela Sociedade Anônima da Caixa Geral e Central do Espiritismo, que transformou a divulgação do saber em um negócio lucrativo. A influência de Jean-Baptiste Roustaing foi decisiva nesse processo. Ao propor o Espiritismo como uma religião formal, com a reencarnação vista como “castigo divino”, Roustaing caminhou na direção oposta a tudo o que Kardec pregava. Apenas a resistência heróica de figuras como Amélie Boudet, Léon Denis e Gabriel Delanne evitou que a chama da integridade doutrinária se apagasse completamente na França.
O Eco do Erro no Brasil: A Institucionalização do Dogma
Infelizmente, enquanto o roustainguismo perdia força na Europa, ele encontrou solo fértil no Brasil. A profunda herança católica e a carência de um pensamento crítico sistematizado tornaram a população brasileira vulnerável a um Espiritismo “adocicado”, que misturava a razão de Kardec com os dogmas do Velho Mundo.
A Federação Espírita Brasileira (FEB), embora fundada com ideais progressistas em 1884, acabou sucumbindo a essa influência. Em 1902, a obra de Roustaing foi preferida ao “Evangelho segundo o Espiritismo”, sob a falsa promessa de ser uma “revelação completa”. Até mesmo a revista Reformador, outrora laica e livre-pensadora, tornou-se veículo de propagandas dogmáticas.
Nesse cenário, Bezerra de Menezes, ao alinhar-se aos grupos roustainguistas e afirmar que o “Espiritismo é religião”, contribuiu para um retrocesso intelectual. Essa visão foi posteriormente legitimada por obras psicografadas que tentaram inserir Roustaing como um missionário auxiliar de Kardec — uma tese contestada por estudiosos rigorosos, como Herculano Pires, diante da evidência de que originais foram incinerados para apagar as contradições.
A Luta pela Verdade: O Legado de Canuto Abreu
Diante desse cenário de desinformação, surge a figura fundamental de Silvino Canuto Abreu. Com a precisão de um historiador e a paixão de um buscador da verdade, Canuto Abreu dedicou sua vida a denunciar a deriva dogmática da FEB. Através de pesquisas exaustivas na França e no Brasil, ele resgatou milhares de manuscritos e depoimentos que provavam a distância abissal entre a liberdade proposta por Kardec e o tradicionalismo místico imposto pelas instituições brasileiras.
Seu trabalho, embora silenciado por décadas, é a chave para compreendermos que o Espiritismo foi sequestrado por uma visão retrógrada. Ele nos mostrou que a vulnerabilidade brasileira ocorreu porque ignoramos o Espiritualismo Racional — a base filosófica que, na França, protegia os espíritas do dogmatismo e defendia a moral laica e o dever consciente.
Conclusão: O Chamado ao Despertar
O desvio do Espiritismo não foi um acidente, mas um processo de distorção que transformou uma ciência da libertação em uma seita de obediência. Hoje, a restauração da verdade histórica, impulsionada por pesquisadores como Canuto Abreu e Simoni Privato Goidanich, não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade urgente.
É hora de romper com as amarras do passado e retornar à fé raciocinada. Somente ao resgatar a universalidade do ensino dos Espíritos e a autonomia moral, o Espiritismo poderá retomar sua missão original: elevar a humanidade intelectual e moralmente. O convite está feito: abandonemos a zona de conforto do dogma e reencontremos a coragem da razão.
O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita
O que se conhece de Espiritismo no Brasil passa, necessariamente, pela imagem de um Movimento Espírita formado majoritariamente pela influência da Federação Espírita Brasileira. Contudo, quanto mais estudamos, mas estranhamos a distância inquestionável desse Movimento com o Espiritismo original. Começamos a nos perguntar, então: “o que aconteceu?”. Informações recentemente descobertas nos colocaram a par daquilo que, para alguns, já é muito claro, há muito tempo.
Roustaing — Jean-Baptiste Roustaing — para quem não sabe, foi um poderoso advogado à época de Kardec. Resumidamente, passou a receber comunicações espíritas através de uma médium — sim, apenas uma médium. Nessas comunicações, “os Espíritos” (provavelmente era apenas um) apresentavam-se como sendo os quatro evangelistas e diziam que ele, Roustaing, era o Revelador das Revelações. Não é necessário dizer que isso era uma flagrante mistificação, é? Diremos: isso era uma flagrante mistificação, facilmente reconhecida por alguém que conhecesse profundamente a ciência espírita. Esse alguém, Kardec, critica a obra transmitida por esses Espíritos, “Os Evangelhos”, e, assim, tocando no orgulho e na vaidade gritantes daquele senhor, cria um novo inimigo.
Dentre os dogmas admitidos por esse senhor, estava a ideia de que um Espírito que erra muito é enviado para um planeta inferior, onde encarnaria como uma lesma (“criptógamos carnudos”). Havia também o dogma da queda pelo pecado, onde o ser humano somente teria que encarnar após cometer um erro e, assim, adquirir uma culpa que o projetaria a um castigo, pela encarnação — a mesma ideia inserida na adulteração de O Céu e o Inferno — bem como o dogma de que Jesus era apenas um agênere, ou seja, jamais encarnou entre nós.
Ideias místicas, por alguma razão que não compreendemos, agradam a muitos, por mais complicadas e sem sentido que possam nos parecer, frente à inquebrantável cristalinidade do Espiritismo. Assim, essas ideias encontraram coro ainda em território Francês, inclusive por Leymarrie, responsável maior pela adulteração dos propósitos da Sociedade Anônima e da Revista Espírita, após a morte de Kardec. Logo, essas ideias foram importadas para solo brasileiro, onde se fundou o Grupo Sayão 1, ou Grupo dos Humildes, ou Grupo Ismael. Nesse grupo, aliás, comunicava-se o Espírito do “Anjo” Ismael, reproduzindo diversos absurdos misticistas, o mesmo “Anjo” Ismael que aparece em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, uma obra produzida por um Espírito mistificador, repleta de absurdos misticistas e mesmo de mentiras. Desse grupo fazia parte, também, o tão conhecido Dr. Bezerra de Menezes. É.
O “anjo” Ismael
Esse tão aclamado “anjo” Ismael é tão cínico, tão hipócrita, que, demonstrando sua imperfeição, chega ao nível de dizer que Kardec teria tido uma opinião isolada a respeito da encarnação de Jesus:
Se a opinião isolada do vosso bom mestre Allan Kardec pôde, de alguma sorte, influir no entendimento de alguns, fazendo-lhes crer que o Redentor do mundo viera revestir-se da matéria grosseira dos corpos comuns, para dar o exemplo das maiores virtudes, encaminhando a humanidade inteira para a terra da promissão, hoje, que todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente, que o seu corpo apenas se constituíra de fluidos concentrados no seio da sempre Virgem Maria, não há mais razão de ser para duas opiniões a tal respeito.
As virtudes do céu: a admirável coleção de mensagens recebidas nos primórdios do Grupo Ismael e constantes da segunda edição de Elucidações Evangélicas, de Antônio Luiz Sayão / organizador: Marco Aurélio L. de Assis. — Rio de Janeiro: CRBBM, 2012.
É interessante ver como, sendo a dele uma opinião isolada, ele busca inverter o jogo, ao mentir dizendo que, hoje, “todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente”. É o velho dogma de Roustaing, de que o corpo é imundo, que a encarnação é um castigo e que, portanto, Jesus não poderia ter encarnado. Importa dizer que essa concepção da encarnação como castigo se instalou no Movimento Febiano-Espírita em grande parte, pois repete-se por todo canto a ideia de que o indivíduo que passa por uma dificuldade qualquer, mesmo quando imposta por outrém (como no caso de um crime) ou quando por conta de uma doença, apenas estaria “resgatando débitos de vidas passadas”.
FEB, roustainguista
Antes do Grupo Sayão, fundou-se o Grupo Confúcio. A esse Grupo pertenceram, entre outros, o Dr. Siqueira Dias, Dr. Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Dr. Antonio da Silva Neto, Dr. Joaquim Carlos Travassos, Prof. Casimir Lieutaud. Muitos desses vocês verão no material disponibilizado, declarando sua “fé” em Roustaing e nos seus quatro Evangelhos. A esse grupo seguiu a Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade”, fundada em março de 1876. “Deus, Cristo e Caridade” é, até hoje, o lema da FEB.
“Acedendo Bezerra de Menezes em aceitar a Presidência da Federação, em 1895, o ‘Grupo Ismael’ acompanhou o apóstolo, apoiou-o na direção da Casa e integrou-se a ela”, conforme se lê no portal da própria FEB (A FEB – Origens), acessado em 23/06/2024. Assim, passou a dominar a FEB um grupo roustainguista, que se estabeleceu e criou raízes que atravessariam o século XX, adentrariam o século XXI e, nos primeiros anos desse, em 2018, embora deixassem o estatuto febiano, que anteriormente obrigavam o estudo e a disseminação dessas obras, continuaram em suas entranhas, posto até hoje essa instituição não ter assumido publicamente seus desvios e se comprometido à reparação.
O coordenador da Assessoria jurídica do CFN, Francisco Ferraz Batista, apresentou o resultado dos processos havidos na 29o Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, sobre a retirada, do Estatuto da FEB, da parte do item referente à divulgação e estudo das obras de J.B Roustaing. Os resultados foram favoráveis à FEB, para a retirada do referido trecho do item do seu Estatuto, o que deverá ocorrer, formalmente, em reunião da Assembleia Geral.
Julio Nogueira, no artigo “Breve exame dos estatutos da FEB 2“, explica bem sobre o estatuto febiano e suas relações com Roustaing.
A FEB deixou o roustainguismo?
A retirada desse trecho do estatuto da FEB obviamente não retirou Roustaing de suas entranhas, posto que continua constando a obrigatoriedade do estudo de “Brasil, Coração do Mundo”, obra que continua sustentando a mentira sobre Roustaing, destacada por nós em negrito:
“Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico”.
É assim que, “para ser espírita”, na generalidade dos centros espíritas em que se pise, te direcionarão à catequização febiana, estudando o “Espiritismo” não nas obras de Kardec, mas nas apostilas da Federação Espírita Brasileira, onde, trazendo como obra básica “Brasil, Coração do Mundo”, valida-se ao mesmo tempo a mentira sobre a figura de Roustaing e o misticismo do “anjo” Ismael. Valida-se, por conseguinte, toda a tradição febiana e o descarte de toda a metodologia e toda a organização necessárias para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, substituindo-se toda a ciência espírita pela crença cega nos Espíritos e nas personalidades chanceladas pela FEB…
Cita Sérgio Aleixo:
Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Máter do rustenismo no mundo, que registra:
O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.
Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.
Poderíamos estender este artigo longamente, demonstrando que os presidentes dessa instituição sempre foram roustainguistas; que a FEB, várias vezes, conforme se lê em O Reformador, colocou Roustaing acima de Kardec; que a FEB, no início do século XX, publicou a obra Os Evangelhos, de Roustaing, trazendo, no prefácio, uma verdadeira afronta a Kardec, ao Espiritismo e aos espíritas confessos. Deixaremos essa constatação a cargo do prezado leitor, que encontrará no material aqui disponibilizado, obtido em grande parte do próprio site da FEB (no Google, pesquise assim: “site:febnet.org.br Roustaing”), a prova do que ora dizemos. Limitamo-nos a destacar a seguinte imagem, obtida de um documento oriundo do site da própria FEB:
Importante também destacar que, no domínio da FEB, consta um glossário, “Espiritismo de A a Z”, constando a explicação de termos e vocábulos — à luz do Espiritismo, óbvio? Não. À sombra de Roustaing:
Não, a FEB não deixou o Roustainguismo para trás. Como vocês podem ver na imagem abaixo, obtida do instagram oficial da FEB, temos, no dia 19/05, a realização de duas palestras (até o momento não pulicadas) baseadas em QE, que nada mais é que Os Quatro Evangelhos de Roustaing!
Movimento Espírita afastado do Espiritismo
Ocuparemo-nos, porém, de avaliar os efeitos de um Movimento Espírita formado pela FEB:
Espíritas que desconhecem o Espiritismo; espíritas que têm medo dos Espíritos; espíritas que não evocam os Espíritos, questionando as comunicações evidentemente enganosas; espíritas que creem cegamente nas comunicações dos Espíritos, aceitando tudo à guisa de “complemento doutrinário”; espíritas que não praticam a mediunidade no lar, crendo que isso atrairia obsessores e que – um absurdo – somente no centro espírita teriam proteção dos bons Espíritos, que se eles não fossem aos lares dos bem intencionados; espíritas, enfim, que reproduzem as diversas falsas ideias, colhidas das comunicações aceitas cegamente e das opiniões de médiuns idolatrados, provocando verdadeiro vexame ao Espiritismo e dando munição aos seus críticos.
Devemos citar que, dentre esses médiuns idolatrados, figura Divaldo Franco, que, nas palavras de Augusto dos Anjos:
Divaldo Pereira Franco, o primeiro vintém, por mais de uma vez fez a mim, pessoalmente, a afirmativa de que não há como explicar os Evangelhos senão à luz da “Revelação da Revelação”. Seria uma posição reservada, apenas para meu conhecimento particular? Claro que não. Antes que tudo porque os homens de bem não têm por vezo, sob nenhum pretexto, formar posições dúbias, uma pública e outra para os amigos particulares. Esse comportamento anfibológico não cabe nos espíritos de boa moral. Depois, porque a mesma afirmativa o estimado médium baiano já a fez da tribuna, a plenos pulmões, do alto da autoridade e da retumbância que lhe reconhecemos e que tanto têm servido à iluminação espiritual de nós todos, espíritas do Brasil e de fora do Brasil. Para prová-lo, transcrevo a seguir, «verbo ad verbum», as mais recentes palavras de Divaldo Pereira Franco pro- nunciadas do alto da tribuna do Grupo Espírita Fabiano (um dos mais sérios e bem orientados grupos que existem na Guanabara), na noite do dia 6 de Outubro de 1969, estando como de costume superlotado o auditório. Eis o trecho da memorável alocução, gravada em fita magnética, com o conhecimento do orador:
“Durante muitos anos eu não entendia. Eu fui a Roustaing, que é a minha fonte inexaurível de estudo evangélico! Há quase vinte anos que eu leio o benfeitor João Batista Roustaing, meditando na sua palavrazinha, nas belas informações da Sra. Collignon, provindas da Espiritualidade. Mas é de uma interpretação maravilhosa!”
ANJOS, Luciano dos. Um gosto e 4 vinténs. Reformador, Rio de Janeiro, p. 9-11, jan. 1970. Extraído do livro A Posição Zero.
Infelizmente, esse não foi o único caso de um médium idolatrado ou de suas psicografias defendendo a figura de Roustaing e suas ideias, como poderão constatar neste artigo. Lembramos que, aqui, estamos discutindo ideias, e não julgando pessoas.
É evidente que, embora nem todo o Movimento Espírita seja filiado à FEB, os tentáculos do roustainguismo e do misticismo envolveram todo o Movimento Espírita Brasileiro. Infelizmente, esses tentáculos também atravessaram os oceanos…
Plano de Campanha
Vemos, enfim, cumprida a “profecia” realizada em 1867 e apresentada na Revista Espírita de agosto do mesmo ano, artigo “Plano de Campanha”:
Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.
Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.
Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.
A tão desejada unidade do Movimento Espírita não se dará pela afiliação a uma instituição que mais se assemelha ao clero católico. Não. Isso, aliás, contraria os planos para o Espiritismo, idealizados por Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1868 — Constituição Transitória do Espiritismo. Essa unidade somente se dará entre aqueles que, de boa vontade, mergulharem no estudo da ciência espírita, voltando a, depois disso, praticarem a mediunidade no lar, em pequenos grupos, harmoniosos, coesos, realizando a análise das comunicações e das evocações. Esses grupos, espalhados por toda parte, colaborando entre si, sem nenhuma submissão ao controle de uma instituição, mas, sim, ao controle da generalidade dos ensinamentos dos Espíritos, submetidos ao crivo da razão, poderão, então, voltar a trabalhar no desenvolvimento doutrinário. Não antes, não sem isso.
Por isso, destacamos a necessidade da formação de grupos de estudos – no lar, pela internet, no centro espírita – para o estudo dedicado das obras de Kardec não adulteradas e das obras de contextualização. Deixamos, aqui, nossa modesta colaboração nesse sentido: Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos.
No dia em que a Federação Espírita Brasileira assumir seu desvio, comprometendo-se à reparação e subtraindo-se ao propósito de determinar os rumos do Espiritismo no Brasil, voltaremos a valorizá-la. Não antes, não sem isso.